Eloí Elisabet Bocheco

POESIA INFANTIL: o abraço mágico

Argos 2002


em um pequeno
GRANDE livro
Tânia M. Piacentini
Graduada em Letras (UFSC)
Doutora em Educação (UNICAMP)



Quando terminei de fazer a primeira leitura do livro de Eloí Elisabet Bocheco, POESIA INFANTIL: o abraço mágico (Argos 2002), disse para os meus botões: gente, isto é biscoito fino!. Antes, já havia prestado atenção na capa, da qual gostara pelas cores, pelos tipos e pela disposição do conjunto em relação ao desenho, que me pareceu familiar. A confirmação veio rápida e agradavelmente: todas as ilustrações, bem inseridas e adequadas ao espírito do texto, são de Edward Lear e o mesmo cuidado se estende a todo o projeto gráfico, uma criação do Estúdio Letras Contemporâneas. Trata-se de um livro de pequeno formato, 18x12 cm, perfeito para se carregar no bolso ou na bolsa, e as páginas, onde se alternam textos em prosa e em verso, ilustrações e notas de rodapé, têm os necessários espaços para o olho respirar, descansando, e boas margens para as exclamações e os comentários do leitor, nas pausas ao longo de diferentes leituras.
Conheci a produção literária de Eloí há dois ou três anos atrás, num encarte, Caderno de Verão do jornal A Notícia, e eram pequenas crônicas que me chamaram a atenção pela linguagem poética que tornava inusitados, ilógicos, divertidos e mesmo absurdos os temas, delicada e sutilmente deslocados do lugar-comum do cotidiano. Eu os recortava e levava para a leitura de uma irmã também apreciadora do gênero. Desde então venho acompanhando as suas esparsas publicações, e sempre gostando do que ela escreve, em prosa ou em verso. Daí achar perfeito o casamento com as imagens de Lear e seu Livro do Nonsense [1]: Eloí também puxa pelo nariz as palavras e cria quintais da pá virada, onde "nascem pitangueira no ouvido e jabuticabeira no umbigo", imagens de um dos seus poemas que demonstram na prática o que a autora fala enquanto teoriza sobre humor e ilogismo na poesia.
Acredito mesmo que o maior mérito deste livro, o que o torna leve sem perder a seriedade e a profundidade, é a multiplicidade de talentos da autora, vivenciados na vida profissional enquanto professora de crianças e de jovens e enquanto escritora. Um resumo dos quatro capítulos, mesmo que a vôo de pássaro, pode dar uma idéia dos enfoques que a autora privilegiou no vasto campo da poesia para crianças.
"No dia-a-dia as palavras estão sempre de asas quebradas": assim começa um parágrafo da primeira parte, que discorre sobre as diferenças entre a palavra poética e a palavra comum. O final do argumento é muito bonito e feliz: "A palavra poética, a palavra literária voa e faz voar gentes e reinos. A poesia genuína, aquela que tem compromisso com a beleza, a emoção, a invenção da linguagem, a poesia que apresenta a palavra em "estado de arte" liberta da relação convencional com a linguagem em que as palavras vão e vêm batidas de rotina, perseguidas por todo tipo de molde para que não voem." As reações das crianças a essa linguagem poética estão sintetizadas em algumas definições e conclusões dos alunos que vivenciaram um contato estreito e apaixonado com poemas de Cecília Meireles, Mário Quintana, José Paulo Paes, Vinícius de Moraes, Elias José e tantos outros, consagrados ou não, "nos canteiros de poesia cultivados na escola".
Em Palavras, o abraço mágico, fica claro o mergulho na essência, no sagrado, no original do humano, porque Elói elege principalmente a poesia de Manoel de Barros como exemplo de palavra mágica que recria a experiência com o poético das coisas. A análise dos poemas é tão sutil quanto esses, pois o que importa é destacar "a poeticidade do não-senso", "a lógica da poesia em sua proximidade com a mentalidade mágica da criança".
No terceiro capítulo, a ênfase recai na cumplicidade do riso ilógico, na gratuidade da arte, no "ser inútil da poesia". Aí estão alguns poemas inéditos da autora e de outro poeta, Antônio Odair Santos, convivendo em pé de igualdade -- em inventividade, marotice e comicidade -- com versos de Sérgio Caparelli, Ricardo da Cunha Lima e do já eterno Vinícius. E surgem também outros convidados especiais da festa, aqueles que ajudam na construção dos alicerces da teoria e da prática poética: tive o prazer de encontrar Ítalo Calvino e Octavio Paz, Gianni Rodari e Walter Benjamin acompanhando Câmara Cascudo, entre outros.
Em Palavras de todos, palavras de sempre, o diálogo com o vasto acervo folclórico dos cantos, danças e versos e festas deste vasto país do imaginário, mais antigo do que o real dos quinhentos anos brasileiros. A herança dos vários povos que nos fizeram, nativos ou transplantados, surge avivada pelas brasas da emoção e da memória que não quer morrer. São os calangos, os camaleões, os versos da Festa de Reis, a mulinha de ouro, os santos, as parlendas, os pontos do jongo, os provérbios e ditados populares. São versos novos cintilando da tradição, e não resisto à transcrição desse poema da autora:


CABRA MONTÊS

A cabra montês
dá leite coalhado
pra quem ficar sentado
Dá leite amargo
pra quem olhar pro lado
Dá leite salgado
pra quem chegar atrasado
Dá leite ardido
pra quem ficar perdido.

Eu que sou de fora,
peço água e vou-me embora.

Mas antes de ir, digo mais, digo que tem no final uma breve antologia de poemas selecionados pela Elói, onde modestamente não se encontram os seus. Esses, a Argos ou outra editora com bons critérios editoriais e bom gosto literário, ficam nos devendo. Os inseridos ao longo da conversa da autora-professora com seus pares -- porque este também é um livro didático, técnico! -- e com todos os adultos que amam a poesia, são por demais promissores para continuar na gaveta dos inéditos.

Leia a entrevista da autora:
Riqueza para a geografia interior,
no jornal A Notícia, 6 de out. 2002
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nota [1]
Edward Lear, pintor e desenhista inglês do século XIX, dedicava-se sobretudo às paisagens e aos desenhos temáticos de história natural, destacando-se papagaios e tucanos para a coleção The Earl Derby. Ficou consagrado pelo livro - escrito para agradar e divertir os filhos de seu patrão - com os limeriques que escreveu enquanto desenhava, com personagens que não perdem o olhar infantil sobre o mundo. O estilo naif infantil foi deliberadamente adotado por Lear, com figuras de cabeças aumentadas para enfatizar as expressões faciais de espanto, admiração, desamparo ou abandono, sentimentos enfatizados pelos gestos e posturas dos membros. Os pássaros e animais desenhados em seu trabalho profissional reaparecem em seu livro de nonsense, inicialmente publicado em dois pequenos volumes de litografias, em 1846.


Dobras da Leitura
Ano IV - N.º 13 - abr. 2003
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