A obra de Roald Dahl (1916-1990) é marcada por histórias cuja
referência recai nos sofrimentos familiares, aliados a lances mágicos
tratados com ironia. A Fantástica Fábrica de Chocolate, livro bastante
conhecido no Brasil, que teve uma de suas adaptações para o cinema realizada pelo próprio autor, é uma obra de alto valor literário que apresenta uma típica família da classe proletária, suas esperanças e penúrias; segue pela linha da magia e do fantástico chegando às raias do delírio, e com muito humor.
A história remete à fábula, de quando a sorte ou a fortuna
recaem sobre aquele que se destaca por suas qualidades morais, pela
obediência, pela paciência e abnegação. Assim como nas fábulas, aquele que se insurge contra os preceitos morais, no reino dos homens ou dos animais, há de sofrer as mais duras penas.
A história remete aos contos de fadas, em que os pertencentes às
castas inferiores e os menos favorecidos eram agraciados e escolhidos por
reis, príncipes e princesas para habitarem palácios suntuosos privando com a
nobreza, e assim viverem felizes para sempre.
Detendo-se ora na fábula, ora no conto de fadas, em A Fantástica Fábrica de Chocolate o leitor interage num campo bastante peculiar aos dois gêneros de literatura. Não será impróprio afirmar que tanto a fábula quanto o conto de fadas buscam, junto a ensinamentos, castigos e doses maciças de sabedoria, um bem maior, fantástico e de conturbado acesso: a felicidade.
Daí a razão de trazer para reflexão a questão da felicidade como metáfora na obra de Dahl.. O pequeno Charlie Bucket faz parte de uma família em que apenas o pai trabalha. A casa onde moram Charlie, a mãe, o pai e os quatro avós é minúscula e possui apenas uma cama, reservada aos quatro velhinhos. Todos da casa se alimentam pouco e mal. A barra de chocolate que Charlie recebe de presente, resultado de muita economia feita pela família a cada aniversário, constitui o momento esplendoroso de felicidade entre os familiares. Tanto é assim que o menino permanece por semanas admirando a iguaria e adiando o instante dedicado ao grand finale, quando enfim dá vazão ao prazer de ir saboreando o doce aos pedacinhos dia após dia. A felicidade adiada, a recompensa pelos sacrifícios em tempo de abstinência, o sonho tornado realidade, tudo isso traz uma satisfação imensurável. Neste momento, toda a família fica feliz.
"Na cidade, pertinho da casa de Charlie, havia uma imensa
fábrica de chocolate. Imaginem só!", anuncia o narrador. O leitor não só
imagina, como divide com o protagonista toda a frustração de saber-se
próximo da felicidade sem poder atingi-la. Dahl escolhe justamente uma
fábrica, local onde é possível produzir sonhos de consumo, por tempos e
tempos. E a fábrica produz chocolate, numa variedade indescritível, em
profusão, chocolate! Se não o maior, pelo menos o mais saboroso e incrível
entre os maiores objetos de desejo em todo o universo.
E surge a oportunidade única. A de ser um dos cinco felizardos a
encontrar o Cupom Dourado que acompanha apenas cinco entre milhares de
barrinhas de chocolate produzidas pela fábrica
Escolha do Editor — Willy Wonka & The Chocolate Factory (1971), com Gene Wilder.
[AMPLIAR]
cujo proprietário é o Sr
Willy Wonka. O próprio Sr. Wonka promete receber a visita das cinco crianças
sortudas e as conduzirá pelo interior da fábrica de chocolate numa viagem
fantástica. E mais, dará garantia de provisão generosa de doces para a
família da criança que conseguir chegar ao término da viagem. Pelo resto da
vida.
A esperança precede a felicidade que pode estar à espreita logo
adiante. O cupom dourado tem a mesma força do bilhete da mega sena, uma
feliz caça ao tesouro, um pedacinho de papel que pode mudar destinos. O
cupom dourado é o bilhete de passagem que dará acesso à poltrona Vip na
aeronave rumo ao espaço sideral. Dahl é brilhante nesta trajetória que
envolve o leitor em expectativas e esperança, embora óbvio. O leitor já é
sabedor do desfecho, mas isto não lhe tira o valor. E, nesta possibilidade.
habita a semente da felicidade, não aquela felicidade que se constrói, que
se vai tecendo pouco a pouco no interior de cada alma, mas a outra, a que
vem de fora com uma lufada de vento, trazida pela sorte, pela mão do
destino.
Ao abrirem-se os portões da fábrica, o Sr. Wonka recebe, vestido com um fraque de veludo e cartola o pequeno, Charlie acompanhado do avô e as outras quatro crianças com seus pais. Sr. Wonka é o proprietário da fábrica, é ele o responsável pela produção do chocolate, iguaria sem similar. Ele se
apresenta "com todo entusiasmo, os olhos incrivelmente brilhantes, decidido
e cheio de vida, balançando-se de um lado para outro, todo o rosto iluminado
de alegria e felicidade". O autor nos apresenta um Sr. Wonka encarnando a
própria felicidade. E é perfeita a relação, porque o Sr. Wonka está
produzindo felicidade a pessoas; produzir felicidade é um ato essencialmente
feliz.
A fábrica é deslumbrante, tudo nela é surpreendente e
perturbador. As salas que o grupo, conduzido pelo Sr. Wonka, percorre numa
Escolha do Editor — Charlie and the Chocolate Factory (2005), estrelado por Johnny Depp.
[AMPLIAR]
velocidade obstinada, oferecem toda gama de invenções: cremes, gomas de
mascar, balas, sucos, docinhos, pirulitos, tudo de açúcar, em vários
tamanhos e formatos e em vários sabores. Rios e graminhas de chocolate,
supervitaminas da marca Wonka, barras de chocolate que saem da tela da TV
representam pequenas e grandes doses de felicidade ao longo do caminho,
porém é preciso dispor delas com cautela e sabedoria. Podem oferecer perigo
se tomadas com descuido ou arrogância. Ou então, por vezes a consistência ou as misturas podem necessitar reparos no preparo, "ainda não sabemos se está perfeito, tem umas coisinhas para acertar", são recomendações do Sr. Wonka para uma das crianças metida e respondona. E assim é, nem sempre se está pronto para deter a felicidade, mesmo que dela a gente se aproxime. A avidez e o inconformismo poderão ser pedras aduncas no caminho, e levar o
pretendente a potes vazios.
Dahl discorre sobre o comportamento de cada uma das cinco
crianças, narrando cenas hilárias e amedrontadoras em igual medida, enquanto
se diverte com as conseqüências desastrosas. A soberba e a tirania, a
voracidade, a falta de limites e os mimos em excesso, a teimosia e o egoísmo
acabam por provocarem acidentes lastimosos que interrompem a viagem
fantástica para alguns. Já a paciência e o altruísmo são os ingredientes da
recompensa e, obviamente, asseguram ao pequeno Charlie a chegada ao destino cintilante.
A felicidade não é racional. Para o autor, faz-se necessário
conhecer um caminho de dificuldades antes de se atingir esta felicidade
benfazeja, que vem trazida pelos ventos. Buscá-la e reconhecê-la é tarefa
para os pobres de valores e de espírito, para aqueles que se movem pela fé e
que acreditam na ventura, os que recolhem na simplicidade da vida a fração
que confere o mágico e o fantástico, reduto inquestionável. A Fantástica
Fábrica de Chocolate nos deixa esta lição. Falsa ou verdadeira, talvez valha a pena conferir.
* Jacira Fagundes é escritora e tem publicado, entre outros livros,
O menino do livro.