Confraria da Leitura REINAÇÕES apresenta
Pollyana: o toque de Midas
por
Caio Riter
Apesar de escrito em 1912 e ser, portanto, um texto quase centenário, Pollyanna, de Eleanor Porter,
ainda atrai. Talvez pela preocupação da autora em apenas narrar uma história, algo perceptível em algumas repetições
ou demasiadas reincidências, estrutura costumeira no contar oral. Quem teve a felicidade de ter, em sua infância,
um adulto contador de histórias a seu lado, sabe do que falo. As narrativas orais têm muito de inconstância,
de lacunas, de repetições que desafiam a atenção do ouvinte. Tal estrutura é perceptível em Pollyanna,
possivelmente pelo fato de esta novela juvenil ter sido publicada primeiramente em forma de folhetim,
o que resulta numa narrativa com estrutura linear. Os flash-backs, se assim os podemos chamar,
se dão, em sua maioria, pela fala das próprias personagens ao referirem-se a fatos e acontecimentos que
não foram apresentados pelo narrador e que surgem em meio aos diálogos, informando ao leitor alguns "hiatos"
no texto.
Todavia, creio, o livro de Eleanor Porter segue sendo convite, sobretudo, por apresentar uma personagem
que acredita na vida, que acredita no sonho, que acredita que é possível ver-se em uma situação adversa,
a partir de um olhar otimista, bondoso, renovador. A jovem protagonista, nesse sentido, apresenta-se como
alguém que possui um objetivo de vida: não sofrer. Mas não apenas isso. Não é apenas a ausência da dor individual
que Pollyanna busca. Ela quer mais e pretende contaminar a realidade que a cerca, transformando uma
cidade cinza, cheia de pessoas carrancudas, num universo onde a atmosfera reinante seja fonte de alegrias.
Assim, vai, aos poucos, ensinando a todos que encontra o Jogo do Contente e, embora algumas vezes sofra resistência,
sua convicção em ensinar o jogo faz com que seja capaz de manipular as ações dos outros,
a fim de atingir seu objetivo, como se pode perceber no momento em que leva à Sra. Snow uma cesta com tudo
o que ela podia pedir, visto que a mulher sempre queria aquilo que não lhe era trazido.
Assim, como o mitológico rei Midas que, ao tocar em seres e objetos, os transforma em ouro,
a menina traz aos que a cercam uma possibilidade "dourada" de ver o mundo, as pessoas, as situações que enfrentam.
No entanto, diferentemente do monarca levado a um final trágico, em virtude de seu toque mágico,
Pollyanna é conduzida à redenção. A diferença entre os dois, talvez, se resuma aos objetivos que os impelem:
o rei quer riqueza, numa perspectiva egoísta, centrada em si; a garota quer uma realidade mais amena, mais leve,
mais feliz.
Pollyanna encarna, ao mesmo tempo, a inocência e a peraltice tão comuns às crianças e aos adolescentes.
Daí sua atualidade, daí ainda sua necessidade de leitura. É preciso, apesar de todas as adversidades
que o mundo moderno oferece às gerações futuras, acreditar no sonho, acreditar que a transformação é possível.
E, nesse sentido, Pollyanna é convite.
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