Lúcia Pimentel Góes

Vira, vira, vira lobisomem

il. André Neves
Paulinas, 2005


viração e variação
palavra&imagem


Peter O'Sagae
Professor de Literatura Infantil e Juvenil
Doutorando em Estudos Comparados (USP)



... andando apressado pelo Centro velho de São Paulo, meus olhos, desviando das pessoas, foram cair na vitrine de uma pequena livraria, na rua XV de Novembro: lá estava o livro, em posição de destaque, olhando para mim: e imediatamente distingui o enviesado enigmático da ilustração de André Neves vira-virando o poema de Lúcia Pimentel Góes: o menino-lobisomem uiva agora em cores novas, seduzindo-me os passos: a transformação do leitor que começa...
Pois conheci os efeitos da Lua Cheia na versão virada por Ana Raquel, com a primeira edição do livro feita em 1988. Onze anos passados, então-aluno de Lúcia, pude escolher Vira, vira, vira, lobisomem como presente. Com os sete dons e as sete artes, ela conjurou em sua dedicatória, caminhe sempre atraído pela Luz ;-) Tal foi, tal se fez. Neste instante, na soma de mais sete anos, a nova publicação do livro provoca-me a comparar duas conspirações palavra&imagem.
É costume, entre leitores, manter aceso o vislumbre do primeiro encontro com certos textos. Quando se trata de livro para crianças e jovens, em especial, uma nova edição quase sempre é recebida com pouco entusiasmo, pois guardamos olhos para aquela novidade que se revelou junto ao lançamento original. Talvez ainda sejam raros os exemplos de que a prática da segunda ilustração tenha conseguido instaurar tracejos de redescoberta, diante de leitores e especialistas que ocasionamente podem cotejar duas ou mais publicações do mesmo texto literário.
Ilustrador e pesquisador, Luís Camargo tem inclinado seus interesses sobre o diálogo entre poesia e ilustração. Em sua dissertação de Mestrado (Unicamp, 1998), investigou cinco diferentes edições do livro Ou isto, ou aquilo, de Cecília Meireles, e, a partir de bases lingüísticas, nos propõe um conceito de coerência intersemiótica para o estudo das relações palavra&imagem, em três níveis: convergência, desvio e contradição entre palavra e imagem. Num caminho mais informal, já se torna antiga uma gostosa cizânia quanto às versões para a ilustração de Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque: os leitores sentem-se divididos entre as imagens vazadas de branco de Donatella Berlendis e a representação full color de Ziraldo.
No entanto, lembremos, que as mudanças de uma edição à outra nem sempre se fazem com a substituição das ilustrações. Em um livro de Angela Lago, Uni duni tê, as imagens permanecem as mesmas desde seu lançamento, só variando mesmo o tamanho da reprodução de cada uma delas no espaço da página.
Na mudança de casa editorial, Vira, vira, vira lobisomem virou outro livro. São bem distintas as parcerias do poema narrativo de Lúcia Pimentel Góes com as ilustrações de Ana Raquel e de André Neves; entre elas, o quase intervalo de dezoito anos separa cada uma das variações. Nesse período, as condições técnicas para a reprodução de livros também se transformaram, ancorando melhor qualidade gráfica para as publicações, ao mesmo tempo em que a visão de negócios sobre o mercado da leitura, cada vez mais competitivo, passou a exigir soluções atraentes para cativar o leitor à primeira impressão. Decorrência é o alargamento das possibilidades criativas para o ilustrador que, hoje, com mais liberdade, pode investir e explorar materiais diversos em seu trabalho.
Há uma década, ainda era bastante comum que a arte para ilustração dos livros para crianças fosse realizada com materiais que não produzissem densidade ou relevo na superfície do papel, como tintas de solução em água, lápis aquarela, nanquim preto ou colorido de ecoline, guache... Colagens ou pastel a óleo, nem pensar. Porque podiam borrar, rasgar ou enroscar a arte no filtro escanerizador, provocar sombras indesejadas etc.. Tais condições de produção ditariam uma estética particular de baixo custo e os principais ilustradores vieram se destacando, muito mais, pelo traço de seu desenho. Nesse contexto, reproduções fotográficas ou meios mais sofisticados para a reprodução da arte para ilustração também não estavam em pauta: o “permitido” deveria diminuir preocupações com a produção e o investimento feito em literatura para crianças e jovens.


Em 1988, Ana Raquel ilustrou a 1ª edição de Vira, vira, vira lobisomem, da escritora Lúcia Pimentel Goés, para a coleção AkPalô Alô, da Editora do Brasil.
Então, pensando nisso tudo, olho para a ilustração de Ana Raquel. Com tão pouco daquela época, seu jeito de virar imagem é rico, grandioso. E poético. Converge para a história de Lobisô, o menino que a cada sete anos passa por uma transformação milagrosa, em uma atitude de reverência. Não apenas ilustra o registro verbal de Lúcia Góes, no sentido de ornar páginas, mas o comenta na discrição de suas imagens.
No espaço interno do livro, em cada página, temos um quadrado com pouco menos de sete centímetros onde Ana Raquel inscreve sua leitura. Uma concha prepara uma pérola __ mas o que vemos, gradativamente, são fragmentos dessa idéia-imagem de modo a instaurar ambivalências: pérola que é lua, bordas de concha sugerindo estremeção, olho semi-cerrado, pérola que flutua num mar que é céu noturno... Ao término do poema, Ana Raquel toma a dupla página e nos revela outra sorte de viração: a concha que se abre e deixa subir a lua guardada dentro de si, concha que se abre e voa inteira borboleta.
Palavra e imagem, numa proximidade por justaposição, impõem o jogo da transferência de sentidos: a metáfora pendula entre o verbal e o visual, das analogias entre as idades de Lobisô (etapas de sua vida) e a transformação em uma espécie animal, à última viração. “Lobisô ainda foi Lobisô-borboleta, pois o peso dos anos desaparecera e ele estava agora leve, leve como um sopro de ar.” No final de tantas experiências, o corpo se abre para expirar o que há de mais nosso rumo ao infinito. Ana Raquel interpreta o poema, no encontro com a Lua Cheia.


Dupla página ilustrada por André Neves, em Vira, vira, vira lobisomem (Paulinas, 2005)
Em cores fortes, André Neves Vira, vira, vira lobisomem a cada sete anos da vida do personagem: Porque sinto muita alegria em me transformar em tantas imagens, diz o ilustrador na quarta-de-capa do livro. E foi assim, de viração em viração, que acabei encontrando o Lobisô-menino, que cresceu, cresceu e virou livro para mostrar que, com páginas abertas, você também pode virar o que quiser.
A figura humana, ausente no trabalho de Ana Raquel, com André Neves, toma o centro das novas imagens que acompanham o poema, em diferentes requadros. Na capa do livro, vemos o adolescente uivando para a lua e, página à página, a ilustração quase tátil recria as transformações de Lobisô, desde o nascimento místico, na passagem do ano zero, à velhice estrelada.


Detalhe da ilustração de André Neves, em Vira, vira, vira lobisomem, página 6.
Algo das longas figuras de Modigliani, da irreverência cromática de Paul Klee, da força centrífuga dos artistas futuristas, marca o estilo do ilustrador.
As virações mágicas na vida de Lobisô acontecem, como narra o poema, a cada sete aniversários. Na primeira transformação, “seu corpo se cobriu de penas, / virou um gavião, deu um longo pio / e saiu pela janela, batendo as grandes asas...”. Na imagem, as distorções plásticas no corpo do Lobisô evocam as dimensões do vôo, sem redundar na representação da ave. A boca se fecha em canto, as pupilas negras investigam desconfianças na extremidade de um olhar falconídeo. E, numa atmosfera surrealista, a janela abre-se no peito do menino, conspirando metáforas através do paradoxo visual: a viagem que se faz para fora/para dentro de si.
Dessa feliz fusão entre o dizer e o mostrar, as demais páginas ilustradas por André Neves apenas irão oferecer aproximações diversas entre o humano e a figura animal, sempre lado a lado. Não há mais lances que interferem na produção de novos significados ou que re-interpretam o poema. Apenas é mantido o elemento de pertinência palavra&imagem __ até que, nas páginas finais, outro jogo de imagens venha justapor-se ao entrecho verbal.
Todavia, a novidade de Vira, vira, vira lobisomem também pode ser flagrada no fluxo do texto. Se antes Lúcia Pimentel Góes nos apresentava uma prosa poética, cuja mudança de linhas era indiferente, seu texto ganhou uma nova disposição e toma ares de poema narrativo. Intermitente e internamente, o ritmo das frases/versos sofreu os efeitos de uma nova pontuação, de letras maiúsculas vertidas em minúsculas, corte de uma palavra aqui, outra ali, no processo de revisão. Em 1988, a expressão nominal [Lua Cheia] investia-se explicitamente de uma carga simbólica; na edição de 2005, o clarão de lua cheia esmaece seu brilho em segundo plano. Onde antes se lia,
Lobisô cresceu um bonito menino, calmo, gorducho e brincalhão
hoje, temos a afinação de um ponto final entremeando a quebra de linha:
Lobisô cresceu um bonito menino.
Calmo, gorducho e brincalhão.
E o que me delicia escrutinar detalhes assim é a criação de uma pausa, a palavra [calmo] mais calma e altiva, a palavra [gorducho] mais redonda, a palavra [brincalhão] em movimento sonoro descendente, mergulhando o leitor-ouvinte no som cavo do ão. Ora, o antigo fraseado era um tanto acelerado para a descrição de um momento tão sereno. No entanto, o inverso acontece. Na passagem de seus vinte anos, Lobisô vira zangão:Viveu entre zumbidos, provou o mais doce mel, inebriou-se com o perfume dos jasmins, rosas e violetas.” Ao ser dividida em quatro versos, a enumeração fica um pouco desabilitada da onomatopéia do vôo, isto é, a vibração dos sons fricativos e dos encontros consonantais (conforme a leitura que se faz em voz alta), dando lugar a uma melodia mole ou sincopada.
De um livro a outro, me dou conta da transformação: sou um leitor de passos seduzidos pela trama palavra&imagem. Também me agarram os sons, enquanto meus olhos viram e reviram as imagens de Ana Raquel e André Neves, sem encontrar um termo final para a comparação. Ambas as versões escondem segredos, seja nos detalhes discretos, seja na exuberância explosiva da nova edição.

Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 28 - nov. 2005
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