A flor da pele


Antonio Gil Neto
Edson Gabriel Garcia
A flor da pele:
uma história de amor
urbana e pós-moderna


il. Antonio Gil Neto
Cortez, 2005


Um livro com aparência de caderno, ou agenda com recortes e flores pessoais, que conta histórias em torno de um diário que se parece com um livro, tão precioso é seu talhe... E eis que esse diário é propositalmente deixado no banco de uma praça, como esquecido, e irá rodar à fortuna de muitos leitores, pela cidade, contando a história de amor que nasce, cresce, traz alegrias e faz sofrer, entre Eva e Juliano.

Uma história de amor que se perde de vista, na dupla intenção dos autores. Ora, é o diário que vaga de mão em mão, mal sabemos aonde irá chegar, e o texto apresentando uma diversidade de leitores numa voga de voyerismo (afinal, quem não gosta de saber da vida dos outros?). Todos são leitores fragmentários de um mundo urbano apressado: contentam-se, por isso mesmo, com algumas páginas lidas do diário; identificam-se rapidamente com Eva, revivem suas próprias histórias, mas parecem dissipar aflições alheias e seguem em frente. Ora, é o romance banal curado pelo tempo e tão comum a todos que normalmente engendra o anonimato para uma vida afim assim.

Gil Neto e Gabriel Garcia propõem A flor da pele como um tecido roto, mal cosido: do registro irregular no diário de Eva, às diferentes cenas que vão sendo intercaladas sempre com um novo personagem-leitor. Talvez, nisto resida a ambição pós-moderna dos autores: nenhum fio rígido para regular o baile de textos e informações que nos envolvem. A qualquer instante, corações e mentes encontram, na história do amor de Eva por Juliano e na história de seu diário perdido, o espelho da deselegância discreta do amor e restos literários. Recortes presos à página do livro-diário (e à nossa memória) em conflitos e versos de Anônimos, Buarque, Beauvoir, Camões, Drummond, Espanca... Pessoa, num móbile de bilhetes, horóscopo, postais, mensagens de internet.

Ao contrário da urgência que toma conta das referências,
o romance-relato segue um ritmo mais largo e extenso.
O tempo é passionalizado e a autora do diário rumina os acontecimentos e incertezas de sua vida adolescente »»

Por algum motivo, talvez distração da personagem central
no registro de seu diário, ou uma inconveniente confusão editorial, na página 38, Eva, ao relacionar a literatura e sua própria vida, faz comentários sobre a leitura das Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado Assis, e troca tramas. Fala a respeito do triângulo amoroso e das suspeitas de traição de Capitu, entre Bentinho e Escobar. No entanto, estes personagens vivem nas páginas de Dom Casmurro, outro livro do grande mestre e Bruxo do Cosme Velho que, de algum modo, inspira a jovem no intento de continuar escrevendo suas memórias "precoces e antecipadas"...

O cuidado com a produção gráfica
é o maior atrativo desse livro que o autor Antonio Gil Neto ilustrou, em fragmentos de palavra e imagens que o ritmo de uma rápida decupagem lança sobre a página. O resultado é a sobreposição de contornos, texturas e contextos visuais.
Em algum canto do livro ;-) por exemplo, a ilustração entra em função metalingüística e diz ao leitor:
Era um caderno [...] cor de ouro velho, tudo [...]
reciclado. As páginas [...] emocional. Na capa [...]
feminino, Eva [...]
E, no meio de todas as colagens, delicie-se com o poema de Ferreira Gullar: bem a propósito, intitulado Aprendizado.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura

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« ... deixou-se ficar em silêncio, aproveitando
a paz que o sombreado e o vento delicado, ali
na praça, lhe ofereciam instantaneamente.
Uma pessoa veio e sentou-se ao seu lado no banco verde. Dudu olhou-a distraidamente com o rabo dos olhos, sem muita curiosidade, mais motivado pelo movimento da madeira do banco do que por qualquer outra razão. Era uma moça. Pelo rabo dos olhos também viu que a moça estava inquieta, mexia muito as mãos, que seguravam um pequeno livro ou algo parecido. Nada além disso. Dudu distraiu-se novamente
em seu silêncio
de preocupação e perdeu de vista a moça. Tanto que nem viu quando ela se levantou e foi embora. Algum tempo depois... »





Eva escreve:
« Sinto um cheiro de despedida dos amigos, da escola, dos professores.
A festa vai ser linda,
eu sei. Mas ela me joga na vida, para ir ao encontro do meu destino. Um lugar da vida
bom e bonito a
que se quer chegar,
que se quer conquistar.
Não sei se o Ju vai estar comigo nessa. Estamos bem, meio mornos um com o outro. Ele diz que nada mudou. Que gosta de mim do mesmo jeito de sempre. Mas eu sinto que sim. É uma pena.
Mas mudou. O tempo desenha com lembranças simples tudo o que teríamos de reviver ou dizer em mil palavras... »

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