José Carlos Aragão No fundo, no fundo, não tem fundo il. Gilmar e Fernandes Paulinas, 2004 O que pensar e fazer se, um dia, um buraco surgisse, sem mais nem menos, sob nossos pés? Surgindo do nada, de uma hora para outra, nós e o buraco abaixo? Situação assim estranha conta José Carlos Aragão. Um certo clima de medo e dúvida vai se insinuando na vida de um menino. Afinal, por que aquele buraco resolveu aparecer em seu caminho? O pequeno protaganista hesita e nós, leitores, estamos diante de uma narrativa pouco comum em literatura para crianças: o gênero do conto fantástico. "Somente se tem medo do que não se entende", ou não se pode entender... e este é o princípio que articula as primeiras páginas e aparições do buraco no conto. Além disso, o autor lida com outras características do fantástico nas situações que inventa. Existe o elemento sobrenatural, que não segue as leis da natureza: o buraco que persegue o menino, mas ninguém cai dentro dele! Doses realistas de um universo idêntico ao nosso, com pessoas comuns em seu cotidiano bem conhecido: o menino, de fato, é bem igual a qualquer outro menino; sua rotina, casa, escola, futebol, tão igual que soa até sem graça... Por fim, no conto fantástico, há o afastamento do personagem principal da convivência de outras pessoas: sim, somente o menino vê o buraco, somente ele vive a perseguição do buraco. No encontro decisivo, o buraco invade a privacidade do quarto do menino __ e aí descobrimos o impossível: o buraco fala! Com texto ágil, Aragão mostra como conseguiu ser um contador de histórias novas: as conversas do menino e do buraco são como charadas com um toque extra de filosofia bem humorada, acendendo pequenas luzes que rodopiam no fundo do buraco (ou na cabeça da gente) sobre questões sobre o poder e o querer, a imaginação e as coisas possíveis de realizar. Não é à toa que o conto tenha conquistado o Prêmio Adolfo Aizen de Literatura Infantil e Juvenil 2001 - categoria "Originalidade", da União Brasileira de Escritores. |
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