Lendas Brasileiras
por Cléo Busatto
2005
Contos e encantos
dos 4 cantos do mundo

2001

* disponível para compra
   nas Livrarias Curitiba
   ou através de e-mail


narração digital,
surpresas, sustos
e transformações


Peter O'Sagae
Mestre e Doutorando em Letras
pela Universidade de São Paulo



Tempo e espaço se compactam, cabem agora em um disco: dentro de um programa de aplicação múltipla, sons, cores, movimentos formatam a imagem do velho e tradicional contador de histórias sobre a tela. O corpo não está presente diante de sua platéia, mas apresenta-se como memória de dados num sofisticado software... Cléo Busatto não é mais a contadora de histórias tradicionais, uma voz que ressoa num corpo. Transformou-se. Ela é, senão a personagem das narrativas que vem nos contar, a matéria plástica frente a nossos olhos que vai se redesenhando, instante a instante, no seu mais recente trabalho, o CD-ROM Contos e encantos dos 4 cantos do mundo __ vol. 2: Lendas Brasileiras, uma produção de caráter independente com o apoio de leis de incentivo à cultura, da Fundação Cultural de Curitiba e Siemens (2005).
Numa breve apresentação animada, Cléo Busatto avisa aos navegantes que essas "histórias não tem rei, não tem rainha, não tem dragão nem fada madrinha; as nossas histórias têm sons que vêm da noite, têm o cheiro da mata escura..." Em Lendas Brasileiras, a contadora reservou segredos e espantos para compartilhar, mitos que assombram
 Lendas Brasileiras
interface de navegação do CD-ROM
sonhos e andanças pelas regiões do país: Iara, Mapinguari, Tutu são os seres encantados do Norte; Caipora, Comadre Florzinha e Cabra Cabriola, do Nordeste; Corpo-Seco, Pé-de-Garrafa e Papa-Figo, do Centro-Oeste; Lobisomem, Caboclo d'Água e Mão-de-Cabelo, da região Sudeste; Bruxa e Boitatá, do Sul. Além das pequenas narrativas, o CD-ROM se completa com um jogo de trilha para quatro participantes e links diversos para textos informativos sobre artes e tradições populares, dados geográficos e históricos, meio ambiente e pluralidade cultural, textos enxutos que "não pretendem esgotar esses temas, antes situar e contextualizar" a descoberta do universo mito-poético brasileiro.
Outra aventura para quem entra neste Lendas Brasileiras certamente é acompanhar a performance de Cléo Busatto na esfera da narração digital. Porque habitamos esse novo mundo, já nos habituamos à imensa capacidade de condensar informação das multimídias: num mesmo suporte, as linguagens verbal, sonora e visual são cooptadas dentro de uma mesma organização. Ora, o que importa é a maneira como associar essas diversas linguagens e seus códigos específicos.
Vale lembrar o CD-ROM anterior de Cléo Busatto a fim de verificarmos diferenças no tratamento das histórias. No volume 1 de Contos e encantos dos 4 cantos do mundo (2001), aparecia integralmente o texto das narrativas para leitura na tela e Cléo Busatto ora dava voz às histórias como se acompanhasse a "virada" de páginas ilustradas, ora era ela flagrada por uma câmara de vídeo, contando o conto.




Cléo Busatto em 'Mãos-de-Cabelo'
Da mesma forma com que variavam a entonação e a melodia da voz, podiam variar os enquadramentos sobre o rosto da atriz ou toda a gesticulação do seu corpo. Havia, neste primeiro CD-ROM, uma idéia de junção de diferentes registros (escrita verbal e ilustrações, áudio, vídeo) que desaparece da segunda recolha de histórias. O que vemos então, em Lendas Brasileiras, é uma nova concepção de perfomance: livre dos traços que imprimem à tela a feição de um livro eletrônico, as improvisações de Cléo Busatto conquistam outra qualidade de integração multimídia. Elas estão mais videográficas, no sentido em que a câmera não é mero instrumento de registro, mas um espaço criativo de experimentação com a imagem, a voz e os movimentos da contadora.
Cléo Busatto é filtrada eletronicamente para dentro das animações do ilustrador Paulinho Maia e, por essa razão, pode multiplicar seu corpo diante de nossos olhos: uma, duas, três, muitas aparições sobre a tela em diferentes camadas, diferentes densidades e proporção... por vezes, o corpo de Cléo é reconstituído como desenho animado e sofre a interferência de grafismos que lhe dão cabelos verdes,



Cléo virando bruxa e Mapinguari
asas de borboleta ou longos fios de cabelos brancos que lhe escapam da ponta dos dedos... No entanto, as transformações não param por aí. Sua imagem é elástica e, deixando de lado qualquer vestígio de vaidade sobre a própria face, Cléo Busatto vai se distorcendo, virando aqueles seres fantásticos de quem está a falar: seu corpo se alonga, queixo e orelhas crescem, seu nariz se achata, a boca aberta se amplia, cada vez mais e mais, larga e alargando-se vai devorar as criancinhas que não obedecem as mães: sim, a contadora de história é também o personagem assombrado. De pele pálida ou amarela, craquelenta ou vermelha... Assim, a fotografia não se faz sempre límpida, mas joga com todos aqueles ruídos típicos da linguagem do vídeo-clipe, como saturação de cor, brilho excessivo, granulação de pontos, tremulações, perda de foco, apresentando o que os técnicos do purismo eletrônico costumam chamar de uma imagem suja __ tudo isso, claro, a favor do plano de expressão, da perfomance narrativa.




Palavras e frases em movimento
Outra surpresa é o trabalho gráfico com o código verbal durante a narração. Longe do livro e de sua matriz convencional como página impressa, o CD-ROM não apresenta o texto integral das histórias para uma leitura na tela. Palavras e frases são coreografadas, o que acaba por produzir variados contextos para a percepção e a recepção dessa materialidade significante. Sempre em sincronia com o áudio, o corpo gráfico do código verbal pode parecer simples duplicação, um reforço pautado na forma de legenda ou um destaque fortuito para uma palavra ouvida durante a narração. Se a contadora põe-se a chamar um personagem, seu nome vai preenchendo a escuridão da tela-noite e, como eco que escoa, o nome esvanece entre estrelas amarelas... Coloridas, palavras e frases correm de um lado para o outro, de cima para baixo e vice-versa, do fundo para o primeiro plano.
Em alguns momentos, Cléo Busatto passa a contracenar com o signo verbal em movimento, como se palavras e frases fossem uma espécie de segundo ator sobre o palco digital: ela se desvia de um uivo horrendo, senta-se sobre palavras, corre no meio de um fraseado, perpassa o espaço entre letras...



Cléo e suas palavras-cenários
Temos assim uma outra função para o código lingüístico: a palavra como cenário. Por isso, a contadora de histórias pode saltar e cair segura sobre a palavra-chão que se estica sob seus pés, ou adentrar uma floresta sombria que é composta graficamente através das cores, preto e verde, mais transparências, sobreposições, movimento e distorção das quinze letras do sintagma [floresta sombria]: nome virando coisa __ ou, semioticamente pensando, o signo verbal visualmente transformado em ícone através das qualidades que mimetiza à semelhança de seu objeto: a floresta sombria.
No entanto, nenhuma teoria muito complicada é necessária para a diversão junto dos monstrengos videográficos que Cléo Busatto e sua equipe nos prepararam. Com as vantagens do hibridismo da multimídia, o CD-ROM Lendas Brasileiras é uma amostra que redefine o antigo estatuto do contador tradicional em suas andanças, quase solitárias, até chegar a uma roda de ouvintes. Extensão de seu corpo, a imagem de Cléo deixa de pertencer a si própria para ser

Cléo digital
"atualizada" com grafismos e metamorfoses computadorizadas do ilustrador Paulinho Maia. Percebemos, de imediato, que a narração digital é um caminho brincalhão para lidar com os sustos: transforma o contador de histórias tradicionais em bytes que brilham __ e sua audiência, agora individualizada, encara o monitor: um clique basta para as surpresas!
Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 26 - set. 2005
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