Maria Angela Resende

Cadê
o docinho que estava aqui?


Formato, 1996
il. Elisabeth Teixeira


Cadê o docinho
que estava aqui?
Onde será que está?


Eliana Aparecida da Silva
Aluna do Curso de Letras, 5º sem.
da Universidade Anhembi Morumbi



Cadê o docinho que estava aqui? é uma obra de Maria Angela Resende, com ilustrações de Elisabeth Teixeira (Formato, 1996). Logo fiquei intrigada quando vi este livro que conta a história de uma avó que fez, para seus netos, um docinho __ que desaparece! Todos vão a diversos lugares procurando o principal suspeito, o gato. Pude perceber que ir atrás de um gato fujão não é uma tarefa muito fácil, principalmente quando ele não quer ser encontrado... Escolhi resenhar este livro uma vez que ele abre horizontes para uma leitura em ritmo de muito jogo... e também porque adoro doces, sou uma verdadeira formiguinha ;-) aliás, você já comeu um docinho hoje?
Já no título, podemos observar a intertextualidade com a parlenda tradicional Cadê o toucinho que estava aqui?. Maria Angela Resende fez uma substituição, como ela mesma explica na nota ao final do livro: “troquei o toucinho (muito indigesto) pelo docinho (bem mais gostoso)”. Na capa, o título aparece escrito em uma bandeja, onde certamente a vovó deixou o docinho. Enquanto ela aponta a pergunta com o dedo, todos os netinhos estão olhando para a bandeja... Até mesmo o cão __ que nós sabemos chamar-se Bichudo (pois a ilustradora colocou um nome para ele em sua vasilha e, desta maneira, Elisabeth Teixeira parece propor aos leitores que dêem um nome também aos outros personagens, não só ao cachorro).
Vemos como as ilustrações vão além do texto proposto por Maria Angela. Por exemplo, a fisionomia e o modo como as personagens estão posicionadas nas páginas, dando a impressão de que se movimentam e dialogam entre elas e com o leitor que, através do texto proposto, imagina e vive o momento junto com as personagens. Logo no início da história, Vovó está saindo e chama seus netinhos para comer o docinho que deixou na mesa da cozinha. Quando eles chegam, o docinho havia desaparecido. O texto está contido em um vazado que ocupa a posição da janela, que é por onde as personagens suspeitam que escapou o “ladrão” do docinho: o gato fujão. Observamos também, nesta mesma página, a tranqüilidade de Bichudo, que parece não estar nem aí para o que acontece naquele instante. Não deixa o cão de ser um suspeito...
A partir daí, a estrutura do texto começa a ser toda feita em lengalenga, com perguntas do narrador dirigidas ao leitor. Idéias vão sendo enumeradas em um trabalho com a sonoridade das palavras. Assim, Saiu todo mundo correndo atrás do gato. Mas... de que gato? O Gato de Botas? O gato da vizinha? Julinho Gatinho? Ou o ‘gato’ namorado da Sofia?... (p. 7). Além da intertextualidade com a história do Gato de Botas, a palavra [gato] é empregada em diversos contextos de significação: “O gato da vizinha?” é o gato-animal que pertence à vizinha. “Julinho Gatinho” é um gato-homem; usamos a palavra [gatinho] para dizer que alguém é muito bonito. “Ou o ‘gato’ namorado de Sofia?...” novamente a palavra gato para indicar uma pessoa.
E o gato da parlenda vai para o mato... Que mato? O mato sem cachorro? Mato Grosso? Ou o mato onde mora a Cuca? Que mato, meu Deus? (p.8). Neste trecho, a autora aproveita-se da expressão popular “estar num mato sem cachorro” que, geralmente, as pessoas usam quando querem dizer que estão sem saída... A Cuca, personagem do folclore, é a mesma que aparece na canção do “Nana neném, que a Cuca vem pegar...”. Além disso, a Cuca virou uma personagem fixa na versão televisiva do Sítio do Pica-pau Amarelo, criado por Monteiro Lobato. Lembra a vilã que é um jacaré? Toda criança sabe: o nome dela é Cuca.
Em contrapartida, nas ilustrações, quando o gato vai para o mato, existem várias setas indicando as possibilidades que foram levantadas no texto verbal, inclusive há a presença do cachorro farejando a possível trilha que o gato percorreu. Assim, o livro inteiro trabalha com a junção do verbal e do não verbal: as ilustrações e o próprio texto dão pistas ao leitor para acompanhar a narrativa, provocando-lhe a curiosidade de querer saber o final da história. É muito interessante esse jogo, pois as crianças de 4 a 6 anos de idade, que são os prováveis leitores, adoram um “mistério”. Onde será que está o docinho, que sumiu misteriosamente da bandeja? Quem será que pegou? Ninguém viu...
Maria Angela Resende constrói seu texto com o intuito de fazer o leitor compreender que as palavras são um universo, assumem vários papéis, com diferentes sentidos, com várias possibilidades que deverão ou não serem descartadas para continuar a busca. Afirma a autora: “Misturei coisas que li, que me contaram, que fazem parte de outras tradições e deixei a vovó e as crianças correrem atrás do docinho. Foi por causa dele que parei no ovo, em vez de continuar a perseguição: não ia ser gostoso deixar de brincar um pouquinho pra comer um docinho daquele que só as vovós sabem fazer?” A autora conversa com o leitor e até faz um convite: “Se eu fosse você, tentava brincar desse jeito com outras brincadeiras do folclore brasileiro: é uma delícia...”
__ Cadê o ovo?
__ Foi batido, foi mexido, remexido e misturado e entrou no... docinho!
__ Que docinho? (p.15).
As personagens chegaram novamente ao docinho, ou seja, ao início da procura. Quando a vovó pegou os ingredientes e fez o docinho. E perguntam: “Que docinho? — O docinho que a vovó deixou em cima da mesa...” e desapareceu!
Ao ver as figuras acabarem e o aparecimento da explicação de como nasceu o livro, o leitor pensa que a história terminou, sem um final, mas não é verdade. A vovó e seus netinhos chegam ao final da procura e voltam ao início de toda aventura. Por sua vez, a ilustração mostra a vovó com seus netinhos em volta do gato fujão, como se o cercassem. Vovó acena com o dedo para o bichano, como se dissesse: — Não faça mais isso, ouviu!?!? A história da vovó com seus netinhos termina ali, mas começa a história do leitor, que depois de ler essa misteriosa história, provavelmente ficará com vontade de comer um docinho ;-) como eu fiquei!
Ei, você já comeu um docinho hoje? Qual você gosta mais? Do brigadeiro? Do bolo? Do sorvete? Do pudim? Do quindim? Ou... Do “beijinho”? Escolha um e não esqueça de me dar um pedacinho!

Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 25 - jul. 2005
voltar