Angela Lago

Uni duni e tê
Compor, 1982

nova edição
Moderna, 2005


e
o escolhido foi... Você!


Carlos Henrique Ribeiro
Aluno do Curso de Letras, 5º sem.
da Universidade Anhembi Morumbi



Sabe aqueles dias em que você precisa definir a escolha de uma leitura e não consegue? E as perguntas vão surgindo na sua cabeça: será melhor este ou aquele? Será este mais fácil ou aquele mais difícil? E você, “não mais que de repente”, lança mão de um artifício que conheceu lá na sua infância, toma coragem e vai: uni duni e tê, salamê minguê: o sorvote colorê, o escolhido foi você. Pronto! Resolvido está o problema... E quem é que nunca sentiu saudades da aurora de sua vida, daquela infância querida "que os anos não trazem mais", mas que as lembranças resgatam? Talvez Casimiro de Abreu também ficasse contente, assim como eu, pelo resgate que Angela Lago fez das cantigas de infância para a produção de um novo texto, seu livro Uni duni e tê (Compor, 1982), contribuindo assim, para a alegria dos saudosistas de plantão como eu, ou quem sabe, até como você.
Porém, dada a escolha, outras dúvidas sempre se insinuam: será que no mundo da produção textual tudo, ou quase, é uma questão de transformação? Será que a necessidade da reciclagem também atinge o mundo da escrita? Como sabemos, a construção de um texto é muito mais que um simples gesto de transportar uma voz para o papel. A produção textual faz uso de muitas outras vozes que são incorporadas ao texto ou mesmo empregadas como parte de um processo de colagem, com o intuito de formar, a partir de elementos isolados, um novo texto. O livro Uni duni e tê é assim: pura intertextualidade __ e o leitor deve estar apto a "ouvir" essas outras vozes.
O enredo fala sobre misteriosos roubos: o ladrão deixa bilhetes propositais no local do crime, queixas são feitas ao delegado que nada faz... D. Rosa arma um esquema para pegar o ladrão, pois seu gato Totó tornou-se o principal suspeito. Em cima do piano, um copo de veneno! No entanto, a armadilha não dá certo e o ladrão deixa outro bilhete __ mas, por descuido, aponta para sua própria identidade! Terezinha de Jesus entra na história, esclarecendo que a pessoa, por ter tomado um último gole do veneno, estaria doente. Samba Lêlê, doente sim, é desmascarado. O ladrão é preso e levado pro quartel...
A presença da intertextualidade é marcada com grande intensidade na escolha e na caracterização das personagens que saem de cantigas tradicionais brasileiras: Zé do Cravo e D. Rosa (de “O Cravo e a Rosa”), D. Xica e o Gato Totó (“Atirei o pau no Gato”), entre outras. A organização de todo esse material resulta em uma nova obra independente das próprias cantigas. São histórias ou cenas entrelaçadas em que uma vai chamando a outra. Tal estratégia pode ser vista no próprio fim do livro em que a última cantiga “Marcha Soldado” é mencionada.
A narração também faz uso da imaginação sonora conseguida não só pela construção do texto feito um pout-pourri de canções, mas também pela pontuação. Vejamos: “E. Foi. Andando. Até. O piano. Um passo. E mais um”. O andar pé-ante-pé é visualizado através da construção escrita e sonora.
É importante também verificar o trabalho de construção do narrador pela escritora, em trechos como o capítulo “Delegacia” em que o narrador se encontra num estado mais neutro, porém quando ele diz: “E o resto vocês já sabem”, demonstra uma intimidade com o leitor, ou seja, o leitor ainda poderá escolher como completar a fala de Zé do Cravo podendo ser, pelo o que houve no enredo ou então pela própria cantiga: “dona Chica admirou-se-se do berro que o gato deu... Miau!”. Vale também destacar o capítulo “Aí” em que o narrador convoca a presença do leitor, desmascarando seu envolvimento na trama como uma personagem __, já que ele pode se ver no lugar de Terezinha de Jesus, que estava "fora" da história, assim como o leitor, mas foi quem resolveu toda trama.
Quando nós estávamos de "fora", apenas diante da capa, já tínhamos em mãos um primeiro enigma em forma de imagens, elementos iconográficos que permitem a leitura de referências às cantigas, por exemplo, a “rosa’, “o gato”, o “piano”. As ilustrações podem ser tranqüilamente lidas como se fossem uma babel de imagens, pois misturam um grande número de elementos e personagens. As ilustrações reforçam a idéia da mistura que pode ser transformada e lida de maneira diferente. Assim, a xícara na cabeça de D. Xica não pode ser lida apenas como uma xícara, mas sim como um chapéu; bem como a borboleta no pescoço de Zé do Cravo: borboleta ou gravata? Trata-se de um jogo de ambigüidade, um paradoxo visual. Ainda existe a possibilidade da figura do gato, em quase todas as páginas, estar funcionando como um acompanhante que vai contando a história...
Enfim, o resultado de uma boa construção irá depender das escolhas que fazemos. O que pôde ser observado nesta obra, foi o bem sucedido caminho da transformação em benefício do leitor. Angela Lago nos mostra justamente que isso é possível e que a criatividade não vê obstáculos no uso dos recursos que a tradição e língua possuem. A autenticidade da obra não pode ser questionada, pois representa o “leque” de conhecimentos que toda pessoa precisa para escrever. O livro Uni duni e tê representa a coragem e a sensibilidade no gesto da produção escrita desenvolvido pelo olhar astuto de uma mente que recria e que transforma uma realidade sem detrimento a uma outra __ e o escolhido foi você, meu caro leitor, pois a qualquer instante você poderá compor uma obra, seja como personagem ou mesmo como leitor.

Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 25 - jun. 2005
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