e
o escolhido foi... Você!
Carlos Henrique Ribeiro
Aluno do Curso de Letras, 5º sem.
da Universidade Anhembi Morumbi
Sabe aqueles dias em que você precisa definir a escolha de uma leitura e
não consegue? E as perguntas vão surgindo na sua cabeça: será melhor este ou aquele?
Será este mais fácil ou aquele mais difícil? E você, “não mais que de repente”,
lança mão de um artifício que conheceu lá na sua infância, toma coragem e vai:
uni duni e tê, salamê minguê: o sorvote colorê, o escolhido foi você. Pronto!
Resolvido está o problema... E quem é que nunca sentiu saudades da aurora de sua vida,
daquela infância querida "que os anos não trazem mais", mas que as lembranças resgatam?
Talvez Casimiro de Abreu também ficasse contente, assim como eu, pelo resgate
que Angela Lago fez das cantigas de infância para a produção de um novo texto, seu
livro Uni duni e tê (Compor, 1982), contribuindo assim, para a alegria dos
saudosistas de plantão como eu, ou quem sabe, até como você.
Porém, dada a escolha, outras dúvidas sempre se insinuam: será que no mundo da
produção textual tudo, ou quase, é uma questão de transformação? Será que a necessidade
da reciclagem também atinge o mundo da escrita? Como sabemos, a construção de um texto é
muito mais que um simples gesto de transportar uma voz para o papel. A produção textual
faz uso de muitas outras vozes que são incorporadas ao texto ou mesmo empregadas
como parte de um processo de colagem, com o intuito de formar, a partir de elementos
isolados, um novo texto. O livro Uni duni e tê é assim: pura intertextualidade
__ e o leitor deve estar apto a "ouvir" essas outras vozes.
O enredo fala sobre misteriosos roubos:
o ladrão deixa bilhetes propositais no local
do crime, queixas são feitas ao delegado que nada faz... D. Rosa arma um
esquema para pegar o ladrão, pois seu gato Totó tornou-se o principal suspeito.
Em cima do piano, um copo de veneno! No entanto,
a armadilha não dá certo e o ladrão deixa outro bilhete __ mas, por descuido,
aponta para sua própria identidade! Terezinha de Jesus entra na história, esclarecendo
que a pessoa, por ter tomado um último gole do veneno, estaria doente.
Samba Lêlê, doente sim, é desmascarado. O ladrão é preso e levado pro quartel...
A presença da intertextualidade é marcada com grande intensidade na escolha
e na caracterização das personagens que saem de cantigas tradicionais brasileiras:
Zé do Cravo e D. Rosa (de “O Cravo e a Rosa”), D. Xica e o Gato Totó
(“Atirei o pau no Gato”), entre outras. A organização de todo esse material resulta
em uma nova obra independente das próprias cantigas. São histórias ou cenas entrelaçadas
em que uma vai chamando a outra. Tal estratégia pode ser vista no próprio fim do livro
em que a última cantiga “Marcha Soldado” é mencionada.
A narração também faz uso da imaginação sonora conseguida não só pela construção do
texto feito um pout-pourri de canções, mas também pela pontuação. Vejamos:
“E. Foi. Andando. Até. O piano. Um passo. E mais um”.
O andar pé-ante-pé é visualizado através da construção escrita e sonora.
É importante também verificar o trabalho de construção do narrador pela escritora,
em trechos como o capítulo “Delegacia” em que o narrador se encontra num estado mais
neutro, porém quando ele diz: “E o resto vocês já sabem”, demonstra uma intimidade
com o leitor, ou seja, o leitor ainda poderá escolher como completar a fala de Zé do
Cravo podendo ser, pelo o que houve no enredo ou então pela própria cantiga:
“dona Chica admirou-se-se do berro que o gato deu... Miau!”. Vale também destacar
o capítulo “Aí” em que o narrador convoca a presença do leitor, desmascarando seu
envolvimento na trama como uma personagem __, já que ele pode se ver no lugar
de Terezinha de Jesus, que estava "fora" da história, assim como o leitor, mas foi quem
resolveu toda trama.
Quando nós estávamos de "fora", apenas diante da capa, já tínhamos em mãos
um primeiro enigma em forma de imagens, elementos iconográficos que permitem a leitura
de referências às cantigas, por exemplo, a “rosa’, “o gato”, o “piano”. As ilustrações
podem ser tranqüilamente lidas como se fossem uma babel de imagens, pois misturam
um grande número de elementos e personagens. As ilustrações reforçam a idéia da mistura
que pode ser transformada e lida de maneira diferente. Assim, a xícara na cabeça de D.
Xica não pode ser lida apenas como uma xícara, mas sim como um chapéu; bem como a borboleta
no pescoço de Zé do Cravo: borboleta ou gravata? Trata-se de um jogo de ambigüidade,
um paradoxo visual. Ainda existe a possibilidade da figura do gato, em quase
todas as páginas, estar funcionando como um acompanhante que vai contando a história...
Enfim, o resultado de uma boa construção irá depender das escolhas que fazemos.
O que pôde ser observado nesta obra, foi o bem sucedido caminho da transformação
em benefício do leitor. Angela Lago nos mostra justamente que isso é possível e
que a criatividade não vê obstáculos no uso dos recursos que a tradição e língua possuem.
A autenticidade da obra não pode ser questionada, pois representa o “leque”
de conhecimentos que toda pessoa precisa para escrever.
O livro Uni duni e tê representa a coragem e a sensibilidade no gesto da produção
escrita desenvolvido pelo olhar astuto de uma mente que recria e que transforma uma
realidade sem detrimento a uma outra __ e o escolhido foi você,
meu caro leitor, pois a qualquer instante você poderá compor uma obra,
seja como personagem ou mesmo como leitor.