Zélio e Ziraldo

A bela borboleta

Melhoramentos, 1980


a
Borboleta adormecida


Telma Araújo França
Aluna do Curso de Letras, 5º sem.
da Universidade Anhembi Morumbi



Publicado em 1980 e tendo alcançado 21 edições até o momento, o livro A bela borboleta, de Ziraldo e Zélio (Melhoramentos), pode ser considerado como um dos mais emblemáticos textos da literatura infantil. Para fazer com que nossas crianças viajem pelo mundo da leitura, os autores utilizam os recursos da intertextualidade e da metalinguagem, trazendo para os leitores a missão de libertar e manter uma bela borboleta acordada...
Já a capa do livro é algo interessantíssimo: os autores começam a instigar a imaginação de seus leitores, colocando abaixo do título, a figura de uma borboleta branca que, num primeiro olhar, parece não possuir beleza alguma. Mas, com a leitura atenta do livro, veremos como a borboleta branca vai ganhar cores e leveza... Descobriremos que o livro é um brinquedo interativo: ela é ainda branca porque ainda não foi despertada!
A aventura se inicia com uma espécie de metaleitura __ ou seja, o livro fala do próprio livro. O início do relato informa que o livro começará com uma paisagem muito bonita. É o que vemos. Os autores utilizam-se dessa estratégia para alertar ao leitor que as ilustrações passam também a fazer parte da história. Mas não é só isso. A paisagem é um cenário, por enquanto ainda vazio, da história que vai começar. Uma paisagem de flores e muito verde, calma e gostosa. Tal quietude logo é interrompida pelos gritos de um personagem muito astuto: o Gato-de-Botas.
Na paisagem do livro, o Gato-de-Botas entra e convoca personagens de outras histórias infantis, como Branca de Neve e os sete anões, Alice e o coelho do relógio (o coelhinho fujão do País das Maravilhas), a Bela adormecida, Peter Pan, um príncipe encantado e o Patinho Feio __ que fazem parte do repertório de muitos leitores, tornando assim essa viagem ao universo dos personagens de ficção muito mais atraente. Aqui claramente está a metaliguagem do próprio livro, quando o narrador comenta a situação: “Como ele estava dentro de um livro, logo, logo, todo mundo atendeu à sua convocação.” O narrador vai deixando evidente que, dentro de um livro, tudo pode acontecer.
E o livro segue falando de sua própria materialidade: entre as páginas oito e nove, o Gato-de-Botas tenta explicar o motivo da reunião mas é sempre interrompido pela fala de espanto e outras tantas interjeições dos demais personagens. Na ilustração, o Gato tem uma expressão de urgência. Ainda consegue dizer: “Seguinte...”, mas é pausado em suas reticências e também é quase fim de página! O narrador completa: “falou Gato-de-Botas e virou a página do seu discurso.” Assim, na página dez, o narrador diz ao leitor que a página seguinte, ao ser aberta, já não será mais a seguinte __ é, portanto, a página atual.
Finalmente, nosso travesso felino conta o motivo de sua convocação extraordinária (ou seria extraordinária convocação?). Tudo começou quando ele conheceu uma borboleta __ ou melhor, uma bela borboleta __, presa no meio de um livro de história infantil. Todos ficaram indignados pois borboletas nasceram para voar com suas asas coloridas e não para ficar presas num livro! Então, formam um grande exército armado de alicates, serras, tesouras, pinças, chaves de fenda e pés-de-cabra e os personagens partem para o meio do livro __ que, é claro, é o meio do próprio livro que está sendo lido e manuseado por nós-leitores. Mas, quando estamos quase chegando, o Gato-de-Botas grita: “Parem! Ela está logo ali, depois da virada. Preparem-se para ter uma emoção...”
Zélio e Ziraldo brincam com a curiosidade do leitor, forçando-o a virar rapidamente a página: vamos ver e apreciar a bela borboleta! Entretanto, ela está com as asas fechadas... Nesse momento, quem entra em cena é o personagem mais importante: o Leitor! Sua missão é despertar a borboleta: ela somente conseguirá abrir e fechar suas asas enquanto houver quem esteja interessado em histórias. Cabe ao Leitor aceitar a proposta bastante convidativa dos autores: as asas imensas nas páginas centrais logo darão ao pequeno leitor a idéia de movimentá-las e ver o resultado do jogo de cores brilhantes saltando das páginas.
A partir dessa brincadeira interativa, o mais importante é a mensagem que o livro encerra: quando o Leitor sentir saudades dos personagens, vai retirar o livro da estante e repassar pagina por página __ a linda borboleta estará sempre a voar. O título A bela borboleta também nos remete, em particular, a um dos mais belos contos da literatura: A Bela adormecida, que conta a história da princesa que, ao espetar o dedo em uma agulha, dormirá para sempre. Neste livro, não existe maldição, mas a borboleta fica adormecida até que o Leitor apareça e pegue o livro, despertando-a com sua leitura. Essa é uma idéia de extrema criatividade, um belo vôo aos livros.

Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 25 - jun. 2005
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