Angela Lago

Um ano novo danado de bom

il. da autora
Moderna, 1997


Moderna, 2004


um Livro
danado de bom


Suely Miranda
Aluna do Curso de Letras, 5º sem.
da Universidade Anhembi Morumbi



Da escritora e ilustradora Angela Lago, Um Ano Novo danado de bom (Moderna, 1997) é um verdadeiro presente para crianças e adultos que não perderam a capacidade de se encantar com a beleza dos contos. O texto é de uma sensibilidade incrível, renovando traços característicos da fala, a cultura e arte oral de nosso povo. A delicada ilustração e o projeto gráfico propiciam outras leituras: a escolha das cores e dos traços faz de cada página uma pintura ampliando os sentidos da história.
Nossa leitura se inicia pela capa do livro (através da edição original, de 1997, ao lado). Vários tons de azul mesclam-se em um vasto céu, todo cheio de sugestivas estrelas em forma de peixes prateados, penas vermelhas e laranjas douradas. Estes elementos partem do contexto do conto para formar um padrão que se estampa como papel de presente. A autora parece ter se ocupado em dar ao livro o quase-formato de um cartão de Natal __ que logo remeterá o leitor a imaginar uma possível história com os elementos do tradicional mito de Natal: o nascimento do filho de Deus gerado pela Virgem, a estrela de Belém guiando os Reis Magos ao encontro da brilhante criança... Mas aqui temos uma surpresa: o presente que a criança negra carrega, em proporções bem maiores que as suas; o Ano Novo será então como este imenso pacote da ilustração, dialogando com as maravilhas que os três Reis levaram para o futuro rei (menino Jesus).
A narração traz a história de quatro irmãs africanas que são compradas como escravas por um preguiçoso homem branco. Como os contos tradicionais, é marcada pela fórmula inicial do Era uma vez..., mas ocorre uma delimitação do espaço: tudo aconteceu na Terra de Santa Cruz, menção às nossas terras pouco após a época do Descobrimento __ o que instaura um traço característico da lenda, gênero em que o espaço torna-se referenciado. Neste tempo mágico e histórico de uma só vez, as irmãs resolvem fugir mas, como a menorzinha delas era ainda um bebê, é abandonada à própria sorte. Mas, antes que o sol nascesse, as irmãs se transformam em seres da natureza __ um pássaro, um rio e uma árvore.
É por este motivo que, na trama do conto, a pequena criança recebe três presentes de suas encantadas irmãs __ uma laranja de ouro, um peixe prateado e uma pena vermelha __ que, em um determinado Natal, acabam sendo divididos entre os dois filhos do branco e a menina. Os irmãos recebem os presentes considerados mais valiosos, enquanto a escrava ganha a pena, pois parecia não ter valor algum. Mas, não era bem assim: a pena é o vôo para sua liberdade.
No entanto, o objeto mágico da pequena é roubado e os filhos do branco jogam-no ao vento __ e ela terá que ir atrás, enfrentando os perigos do desconhecido: terá que mostrar que é capaz de ter seu presente de volta. Neste momento da narrativa, compreendemos que o mal pode servir ao bem... A coragem da menina é colocada à prova, ao atravessar montanhas, vales e florestas, florestas e florestas...
Essa floresta é tão imensa que Angela Lago faz sua ilustração atravessar quatro páginas para que o leitor possa ver a distância, ler a distância e sentir a distância que a menina percorreu para chegar a seu destino, tendo como guia um pássaro vermelho. Com esse incurso, além de afirmar que a floresta era vasta, que era floresta por todos os lados, a autora tornou tudo visível e palpável. E, nada mais providencial que esta longa caminhada termine à beira de um rio que lhe forneça água cristalina e fresca, próximo a uma árvore que lhe forneça fruto. Assim, a menina termina sua busca, ao lado de suas irmãs.
Um grito de alegria faz com que o feitiço se quebre... A pequena não conhecia suas irmãs mas, no momento do encontro, soube perfeitamente que eram elas. Descobriu o enigma. A personagem age sozinha e a autora confessa alheia a este saber mágico e ancestral: a menina adivinhou, sei lá como.
Necessário comentar a relação de cumplicidade que Angela Lago constrói com seu leitor __ a todo instante, ele é convidado a dar sua opinião e mesmo a tirar suas dúvidas. Antes de principiar a busca, a narradora pede ao leitor que lhe ajude a encontrar uma solução para o caso da pequena escrava: Diga-me: o que ela podia fazer? Como quem pergunta: o que você faria? E reserva ao leitor uma página para que possa escrever a sua sugestão... Ao se colocar como uma contadora de histórias, antecipa-se ao leitor/ouvinte e concorda com ele: Pois a menina fugiu... para procurar sua pena. É um jogo pois está obvio que qualquer um sairia a procurar, uma vez tratar-se de presente especial __ quem não iria procurar? Outro momento curioso de interação, e valendo-se das marcas da oralidade em contraste com a linguagem escrita, ela faz trocadilhos ao pedir ao leitor que escolha o comando do pássaro para a menina: “em frente” ou “enfrente”, brincando com o duplo sentido entre a voz e a palavra impressa.
A ilustração é um verdadeiro espetáculo de cores e movimento: os personagens se entrelaçam nas linhas do texto, enroscam-se nas palavras. Em seu trabalho de ilustradora, a autora também rompe com a tradicional marcação dos números de página: nesta obra, os personagens carregam o número para cima e para baixo __ e, assim, até o que é considerado padrão e permanece estático nos outros livros, ganha leveza para que um pássaro possa levá-lo adiante no bico e uma criança segurar!
Angela Lago surpreenderá o leitor a cada página, com um novo jeito de contar, de fazer o leitor tornar-se um personagem e tomar parte no ato de recriação da história. É neste universo mágico que o leitor mergulha ao virar a capa, ao transpor o embrulho do presente.

Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 25 - jun. 2005
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