uma Leitura
pelo Avesso?
Juliano Vieira
Aluno do Curso de Letras, 5º sem.
da Universidade Anhembi Morumbi
Livro de Ana Maria Machado com ilustrações de Humberto Guimarães, História meio ao
contrário (Ática, 1978) narra uma história original que provoca a inteligência e o senso
crítico infantil pelo seu caráter intertextual com os contos de fadas. Logo de saída, ao nos depararmos com o seu título, perguntamos: o que vem a ser
uma história meio ao contrário? Como uma história pode ser assim? Será que vou ter que ler o
livro pelo avesso? Isto é, de trás para frente? O que pretende a autora ao intitular sua obra
assim?
Apenas com uma leitura atenta, podermos responder às perguntas formuladas acima. Ou,
pelo menos, tentar respondê-las. Então percebemos que Ana busca a não-linearidade ao contar
a história toda do fim para o começo, misturando com outros elementos de outras histórias,
como afirma ela mesma:
“Gosto muito de inventar coisas. Por isso não sou muito boa contadeira de histórias.
Fico misturando as coisas que aconteceram com as inventadas. E quando começo a conversar
vou lembrando de outros assuntos, e misturando mais ainda. Fica uma história grande e
principal toda cheia de historinhas pequenas penduradas nela. Tem gente que gosta,
acha divertido. Tem gente que só quer saber de histórias muito exatas e muito bem
arrumadinhas __ então é melhor mudar de história, porque esta aqui é meio
atrapalhada mesmo e toda ao contrário (...)”
História meio ao contrário não é um livro que abordará os contos de fadas de maneira
tradicional, visto que o livro começa já pelo seu fim: “e foram felizes para sempre” __
e a história que se quer contar é a da princesinha, filha do rei e da rainha que foram felizes
para sempre. Há uma ruptura da seqüência tradicional da narrativa, e essa ruptura ou
descaracterização dos contos de fadas está na verdade contrariando todos os modelos do gênero,
numa perfeita desmoralização ou paródia muito bem estruturada, visto que tudo o que ali lemos
nos causa algum grau de estranhamento.
Uma princesa quer correr mundo, conhecer novas culturas e assim conquistar
sua autonomia. Um príncipe se apaixona por uma pastora. O povo levando a melhor na luta
contra o poder... Um rei, que negligencia seu povo e mal conhece o ciclo dia e noite,
a ponto de acreditar que o dia tinha sido roubado. E o mais importante:
a bem fundamentada crítica sobre o caráter do “E foram felizes para sempre”, algo sem graça,
sem motivação, como se não houvesse dificuldade na vida cotidiana de um casal, ainda mais sendo
eles governantes.
Negando a visão de mundo estabelecido nos contos feéricos, os personagens que normalmente
pertencem à simplória divisão entre bem e mal, têm aqui seus papéis trocados.
Por exemplo, o dragão __ que nem sequer personagem é: apenas é a noite
que o Rei manda matar, pensando tratar-se de um monstro que roubou o dia do reino.
O Gigante também: não é mau como acontece nos contos tradicionais. É quem ajuda o povo a
defender, dos desmandos reais, o suposto dragão __ aquele que traz a noite:
se não houver noite, não haverá descanso e todos os súditos deverão trabalhar ininterruptamente.
Ao mesmo tempo, o Príncipe Encantador não se lança na batalha para vencer e casar com a princesa,
como sempre acontece, mas somente se lança à empresa porque não tinha nada melhor para fazer
e não queria ficar parado.
De um modo muito leve e suave, como narradora interativa, Ana Maria Machado estabelece
uma grande cumplicidade com o leitor criança rumo a tão gostosa subversão dos contos, das
estruturas pré-acabadas, levando humor, ironia e muitas gargalhadas ao público leitor. Um
livro que encantará mesmo aos adultos.
Consequentemente, podemos depreender um segundo nível de leitura, a leitura feita além das
linhas, a leitura feita pelo adulto, que poderá estabelecer relações com a situação brasileira.
A maneira como Ana Maria Machado constrói a trama já nos autoriza a tal leitura, ainda mais
quando ela nos apresenta uma personagem chamada O Gigante Adormecido, levando seus leitores
a mais uma reflexão. Quem Ana Maria deseja representar com o gigante? O povo? Ou alguma entidade
especial que ajudará o povo na luta contra a tirania, contra os desmandos do Rei que quer
acabar com a noite? Ou será o Gigante Adormecido o próprio Brasil, deitado eternamente,
país cuja desigualdade social, apesar de todas as riquezas, impressiona a todos?
No entanto, apesar desse nível mais complexo da leitura e da desvirtualização dos contos
de fadas, o livro não perde o encanto e a magia típicos do gênero. Há, de certa forma,
um verdadeiro conto de fadas na negação do próprio conto de fadas.
Os desenhos de Humberto Guimarães (na edição original de 1978) nos fazem recordar as iluminuras, ilustrações típicas dos livros e
incunábulos da Idade Média. As pequenas imagens evocam aqui as histórias do gênero que muitos
acreditam terem se desenvolvido na época medieval, com reis e rainhas. O trabalho do ilustrador
condensa o que já foi dito pela linguagem verbal, dando um suporte de descanso para leitura
a fim de podermos admirar os belos desenhos.