Chico Buarque

Chapeuzinho Amarelo

il. Donatella Berlendis
Berlendis & Vertecchia, 1979


Chapeuzinho Amarelo

il. Ziraldo
13.ed.
José Olympio, 2003


signos verbais,
sonoros e visuais
no baile da leitura


Juliana Gonçalves da Silva
Aluna do Curso de Letras, 5º sem.
da Universidade Anhembi Morumbi



No final da década de 1970, Chico Buarque escreveu Chapeuzinho Amarelo. O livro foi primeiramente lançado pela Berlendis&Vertecchia e ilustrado por Donatella Berlendis (temos outra edição posterior, pela editora José Olympio, com o trabalho de Ziraldo). Nossa resenha percorrerá as páginas da publicação original, pois consideramos uma obra da literatura infanto-juvenil em que as palavras, os sons e as imagens se cruzam e constroem uma leitura poética, plena de descobertas, suscitando um debate de que nem sempre será necessária a redundância verbo-visual para a compreensão do texto.
O livro aqui comentado, através do próprio título, traz a marca da relação intertextual com o conto tradicional da Chapeuzinho Vermelho, então modificado para Chapeuzinho Amarelo __ cor que simbolizará o medo, o receio da personagem. Já a ilustração da capa, composta por um chapéu e um olhar de desconfiança, desperta no leitor uma hipótese inicial de que a menina está se escondendo de algo ou de alguém.
A expressão “Era a Chapeuzinho Amarelo” assinala o começo do novo conto e faz alusão direta à fórmula “Era uma vez”. Existe, no entanto, uma diferença: a abertura do texto não aponta mais para algum fato que talvez tenha acontecido uma certa vez, mas evidencia uma história de uma determinada menina e como era seu jeito de ser. De fato, a obra traz a história de uma outra Chapeuzinho que nada fazia com medo das conseqüências. O narrador, assim, descreve a atitude de uma criança que transforma a fantasia dos contos em sua própria realidade, chegando ao ponto de não brincar, não se divertir, não comer, nem mais dormir. Esta idéia comparece nas três primeiras imagens que mostram a tristeza da personagem e a distância que mantém das outras meninas. Mas, de tudo, o que mais a apavorava era a idéia de, um dia, encontrar o lobo. Podemos verificar que a menina da história de Chico Buarque já bem conhecia o conto da Chapeuzinho Vermelho. Por essa razão, o pavor pelo lobo. E de tanto imaginá-lo, uma vez se deparou com ele!
No texto, são lembrados alguns lugares onde o lobo poderia morar, como o outro lado da montanha, um buraco da Alemanha, com teia de aranha, numa terra tão estranha. É interessante notar que o narrador ao dizer esses locais não só reforça a intertextualidade com o conto tradicional, ou seja, não só quer que o leitor associe esses lugares aos que já existem em tantas outras histórias, mas brinca com as palavras usando-as com a mesma terminação [-anha] dando ao texto rima e rangedura de coisa antiga. Ao mesmo tempo, pensamos que o famigerado lobo poderia morar em qualquer lugar, ou em nenhum lugar porque talvez ele nem exista, de tão longe e de tão antigo que parece ser. Fica a cargo do leitor criar espaços onde o lobo possa ser encontrado...
O medo que Chapeuzinho tinha do lobo era tão extremo que o narrador descrevendo-o, qualifica o medo com o acúmulo crescente da própria palavra 'medo'. Vejamos: “Mesmo assim a Chapeuzinho
tinha cada vez mais medo
do medo do medo do medo
de um dia encontrar um LOBO
Um LOBO que não existia”.
A ilustração que acompanha esse verbal faz um jogo de figura-fundo onde a sombra projetada pelas pernas de Chapeuzinho sugere formar a boca do lobo pronto para devorá-la. E essa “boca” representa o medo que a menina possuía de um lobo não-existente e só aparece como uma sombra recortada na claridade. Não é preciso de muita psicologia para entender a metáfora, somente precisamos de olhos para ver... Este jogo visual lembra também brincadeiras em que as crianças produzem imagens a partir da sombra de suas mãos.
Texto e imagem afirmam que Chapeuzinho Amarelo tinha muito medo de encontrar um lobo fantasioso. Até desconfiamos que essa menina tenha ficado surpreendida com o conto da “Chapeuzinho Vermelho” e, por isso, imaginava tanto o feroz anima que o encontrou, ficando frente-a-frente com ele. Tal como o velho lobo, este novo também era capaz de não só comer a vovózinha, mas também um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz e um chapéu de sobremesa. Essa enumeração faz referências aos contos tradicionais, citando personagens primordiais que aparecem nesse gênero. E o lobo aparece tão perfeito que chega a comer sete panelas de arroz, reforçando o imaginário do sete como o número da perfeição.
A partir deste encontro, Chapeuzinho que se fechava para o mundo, presa à sua imaginação, começa a enxergar o lobo como um animal qualquer, provavelmente incapaz de devorar pessoas. Percebendo que já não é visto como malvado, o lobo fica chateado e envergonhado, sem a função de amedrontar crianças. Revoltado, grita seu nome várias vezes querendo reafirmar seu status... Nesta passagem, podemos voltar à emoção da cena do conto dos “Três Porquinhos”, em que o lobo fez de tudo para derrubar a casa de tijolos __ e aqui faz de um tudo para provocar medo na menina outra vez. Já sem paciência, Chapeuzinho ordena a ele que pare __ e, quando parou, o lobo viu-se transformado em um bolo fofo que poderia ser devorado pela garota! Mas como ela gostava de bolo de chocolate, deu as costas e foi brincar com os amigos sem medo mais de nada.
Nestas páginas que representam o lobo gritando e sua transformação, há uma junção entre signos verbais, sonoros e visuais, compondo um todo significativo. Escrito em letras maiúsculas, o nome 'LOBO' já nos dá a idéia de sujeito poderoso __ isto é, o próprio signo verbal mostra-se como imagem. Através da semelhança de sílabas e de alternâncias sonoras e rítmicas (que o leitor acompanha ao ver a disposição da palavra repetida na folha), acontece a transformação do LO-BO em BO-LO. É como um passe de mágica: Chapeuzinho Amarelo ao mandar o lobo calar-se, transforma-o "semioticamente" em bolo. A varinha de condão não foi necessária e, mesmo assim, o feitiço acabou virando contra o feiticeiro, o próprio lobo acabou se modificando.
Chapeuzinho Amarelo passa a divertia-se como e com outras crianças. Apredeu ser capaz de transformar o velho em novo, à base de trocadilhos e deslocamentos entre palavra-som-imagem, recriando outros companheiros de quem podemos ter medo: dragão, coruja, tubarão, bicho-papão e outros monstros.
Através das ilustrações da obra, Chapeuzinho que usa um chapéu amarelo na capa e início do livro (talvez mesmo para proteger-se do lobo que tanto temia), só o retira da cabeça após deparar-se com ele e constatar que o bicho não amedronta coisa alguma. A menina aparece, então, brincando de amarelinha __ ainda com o chapéu na mão __ mas sua última imagem surge com as bochechas vermelhas, sinal evidente de que o medo passou, já não é mais amarela e, portanto, logo dispensará o chapéu-protetor. Na última página, o chapéu: como se fosse jogado para o ar...
Na associação palavra/imagem, Donatella Berlendis superou um estilo convencional de ilustração. Trabalhou com índices ou pistas dadas para o leitor-criança que irá “preencher/completar” as partes das figuras que não vê na página, com base na leitura do verbal. Neste trabalho da artista com o poeta, a ilustração integra-se à palavra e mesmo a amplia com sugestões de imagens. Este livro exemplifica que não é necessário à obra da literatura infanto-juvenil ser redundante e fechada, pelo simples fato de ser feita para crianças. Acreditamos que, através do conhecimento de mundo que já possuem, os pequenos leitores conseguem conectar pistas dadas pela palavra, pelo som e pela imagem, unindo signos e fragmentos aos sentidos não explícitos no texto.

Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 25 - jun. 2005
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