Glória Kirinus Te conto que me contaram il. Fernando Cardoso Cortez, 2004 O nome de Glória Kirinus evoca brilho de poesia e todo seu talento canta em duas línguas, duas pátrias. E escrevendo assim dobrado, tem a felicidade de completar duas dezenas de livros com Te conto que me contaram retecendo a matéria viva de que são feitos os contos. Seu texto traz o assombro da beleza de uma renda, com a leveza da linha que segue sobre o vazio e se transforma em trabalho: versos livres por onde flutuam idéias sempre partindo do bordão "te conto que me contaram". O resultado é o ritmo do lirismo de uma saga imaginária. Acordando com as cigarras, os contos são os personagens pequeninos e agigantados que saem à ronda pelos bosques, pontes, mercados e outros do canto do mundo __ a qualquer lugar esses andarilhos chegam, principalmente onde exista um ouvido atento para os antigos estribilhos... O ritmo de Glória é imensamente manso __ e, de tal modo, as imagens que convoca vão se fundindo umas às outras, como os limites esmaecidos de um sonho ou a projeção de cinema em camadas de neblina. A clara lembrança de um quadro impressionista em movimento, que seus versos provocam, intensifica o sentido da visão derramada sobre as tenuidades da existência. É sua renda também rosário e canto de imagens poéticas, filtradas de uma tradição de mestres e arquétipos. Cintilam ora um orfeu, ora argos, ora um bilac, ora pássaros do exílio gonçalvino, e muitas outras raridades e estrelas da lírica clássica à romântica. As ilustrações de Fernando Cardoso correm sem apressar os versos. Em sua própria linguagem, corporificam os contos-personagens que a alma tiveram expressa nos versos de Glória Kirinus. Aqui e ali, a linha e cor em massa enlaçam novas idéias que se apresentam não como interpretação, mas participação de um único processo onírico: em certa página, um conto pequenino sob a fresca de um bonsai, a pequena árvore do oriente, que é verde e água e tem peixes entre folhagens e ondas. Logo mais adiante, mil olhos não são vistos literalmente mas voam como dentes-de-leão a escapar de uma fresta para o vento. Ao sopro que se ensaia, aninha-se o leitor. |
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