investigação da saudade por
Lúcia Machado de Almeida


Peter O'Sagae
Professor de Literatura Infantil e Juvenil
Doutorando em Letras pela USP



Será que podemos dizer que conhecemos um escritor todas as vezes que abrimos um livro seu? Agora, sem suspeitas, quero acreditar que sim e de tal modo poder afirmar: conheci Lúcia Machado de Almeida __ muitas vezes...
Verdadeiro clássico, O escaravelho do diabo faz parte das leituras de um tempo em que eu nem sabia o que era ser leitor. Apenas lia algo aqui e ali, feito menino de seus onze ou treze anos que ainda não havia tomado gosto pelos livros... Em casa, minha mãe (sempre mamãe) leu todo o Escaravelho com aquela curiosidade inflamada que só as pequenas novelas detetivescas despertam. Eu sabia redondamente bem que seu enredar-se, no entanto, era mais uma obrigação escolar para minha prima: o esquema de conferência-resumo, descrição de personagens, tempo, espaço, mais alguma opinião __ mas isso hoje não importa.
À mesa do almoço, talvez fosse uma terça-feira (e toda terça-feira traz coisas importantes que jamais deveriam ser esquecidas), minha mãe deixou escapar que havia perdido a hora do despertador e acordado um bocado mais tarde, pois ficara tão entretida no livro que não dormiria sem conhecer o desfecho da investigação de Alberto, a solução dos misteriosos assassinatos anunciados às vítimas através de um coleóptero... Naquela época, eu poderia ter pensado: então, quando é bom, um livro faz a gente perder o sono? Aquela conversa de ouvir histórias para dormir seria assim pura tolice?
Meu encontro com Lúcia Machado de Almeida demoraria um ou dois anos, até que a professora da sexta série pedisse a leitura de um livro que fosse de nosso interesse. Lembrei-me da noite insone de minha mãe e elegi o próprio O escaravelho do diabo, uma das poucas referências que tinha a respeito de livros e autores. A reação que provoquei à professora foi sua proibição sincera, ou melhor, ela bem que tentou me dissuadir, alertando-me para o fato que talvez o livro não fosse lá daquelas coisas recomendas para... crianças!
No entanto, entreguei-me à ventura da leitura. E não apenas uma vez. No ano seguinte, outra professora, novo trabalho de escola e eu redobrando as mortes do Escaravelho... não, não julgue o menino tão apressadamente __ nenhuma preguiça, apenas o diabo de uma idéia fixa, o desejo de ser o detetive que-o-mocinho-não-foi na trama. Já nessa época, eu ostentava um inevitável currículo de crimes: da Borboleta Atíria ao Spharion, outros títulos de Lúcia Machado de Almeida, como os estranhos casos de Stella Carr e Ganymédes José. Como a imaginação permite, tornei-me especialista em zoologia, botânica, hidráulica, elétrica, antigas construções, mitologia, códigos secretos e, claro, na psicologia das mentes atormentadas pelo 'sublime sinistro humano'.
A biblioteca tornou-se meu lugar preferido para investigar mortos e livros, assim sinônimos. Afinal, o que é mesmo uma enciclopédia senão cemitério onde a informação espera ser ressuscitada pelo leitor? Lúcia Machado de Almeida talvez nunca soubesse do tamanho interesse que me provocou sobre as relações insólitas entre palavras e coisas. Aliás, é Fátima Miguez quem nos fala a respeito de uma semântica da maldição, em seu parecer sobre O escaravelho do diabo (FNLIJ), e hoje sei em quais malhas me prendi no final de minha infância, entre fantasia, ciência e linguagem. Igualmente, Lúcia Machado de Almeida talvez nunca soubesse do particular interesse que tive a respeito dos insetos, os coloridos lepidópteros e os belíssimos coleópteros... Tentei uma coleção de ambas as espécies: se logo acabei desistindo de guardar as frágeis borboletas por falta de habilidade para espetar um comprido alfinete em seus corpinhos, tive bem mais de oito besouros.
Com o calor, eles chegavam zunindo e, a cada manhã, muitos apareciam mortos pelo chão. Assim comecei, olhando sempre baixo procurando tropeçando nesses cascudos. Além dos ricamente pretos, com ares de fusca em miniatura, todo laqueados, encontrei besouros de carapaça verde brilhante, com reflexos entre o amarelo-ouro e o azul. Destes, um possuía chifre em forma de seta. Orgulho me dava um muito pequeno, pouco maior que a unha do dedo indicador, que até parecia pintado, muito sereno e discreto em seu marrom violáceo. Contudo, sem qualquer concorrente em majestade, um besouro medindo a palma da mão aberta de um adulto, feito de um verde rútilo, reflexos cor do fogo, totalmente único com um grande chifre. Foi meu unicórnio real.
E Lúcia Machado de Almeida talvez nunca soubesse dessas histórias não fosse um encontro à sede provisória do Centro de Estudos de Literatura Infantil e Juvenil, o extinto Celiju, aqui em São Paulo. Era uma das últimas reuniões do grupo, 1992 ou coisa próxima, e eu ali tão perto dela, pela primeira vez. Já nem me lembro qual era a pauta do encontro. Naquela tarde, eu só queria ficar olhando para ela, admirando toda a mulher, adivinhando o retrato de sua imaginação. Conversamos tim-tim por tim-tim, as expectativas da escritora, as reações do leitor.


capa de O escaravelho do diabo
ilustrada por Sérgio Cáfaro Furlani
9.ed. Ática, 1981
       O Escaravelho do Diabo foi meu primeiro pulp-fiction. Escrito em 1956 (na revista O Cruzeiro) e reeditado em 1972 na brochura-livro, sua trama, embora irregular e sem a presença de um detetive intencionalmente empenhado na resolução dos crimes, apresenta visgo suficiente para a permanência do leitor até o último ponto final do texto. Mas a leitura aí não cessa, prossegue por outros livros, sejam aventuras da própria Lúcia Machado de Almeida, outras novelas de mistério, ou mesmo, textos fora do mundo de ficção. Como afirma Nilma G. Lacerda, "este volume pode desencadear a busca de leituras específicas, em direção ao livro de referência, aos compêndios, às enciclopédias. Sem muita preocupação em teorizar, e consciente de estar colaborando para a formação da biblioteca [do leitor], a autora oferta com sabedoria e perspicácia pequenas doses de informação capazes de instigar a curiosidade" (FNLIJ).
O mesmo processo se dá com o universo minimalista descortinado em O caso da borboleta Atíria (1951), onde as transformações se passam entre as metamorfoses próprias dos ciclos da natureza e o olhar/percepção detetivesco, muitas vezes, alimentado pela curiosidade da ciência. Tal é a visão da assustadora coruja que, na verdade, é uma borboleta de grande envergadura do gênero Caligo, usando sua aparência para impor a imobilidade do medo às demais personagens. Nas páginas de Spharion (1979), novela aberta sob a epígrafe de Isaac Newton, um pouco mais: moléculas de diamante e carbono-14, levitação, física quântica e parapsicologia, além da incrível Ilha de Fernando Ferguson, "onde a ciência e a magia se confundem", no dizer Nelly Novaes Coelho (1995: 583), e que tanto procurei nos mapas geográficos!
Dos muitos encontros que tive com Lúcia Machado de Almeida, e o jovem leitor ainda pode ter através de suas obras, a certeza de que o micro e macrocosmos existem, sem fronteiras, para nossa exploração. Mesmo que literária. Basta-me o enredamento ficcional. Porque "se a verdade está lá fora", já sabia o poeta Mallarmé que o mundo existe para acabar num livro: o detetive inventa-se.

Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 24 - abr. 2005
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