Miguel Leocádio Araújo
Professor de Teoria da Literatura na UFC Mestrando em Letras (Literatura Brasileira) pela UFC Foi professor-leitor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira na Universität zu Köln, na Alemanha
Clarice Lispector
uma vez revelou que, quando criança, pensava que os livros “nasciam”, como
as árvores ou os bichos. Hoje, talvez as crianças não pensem mais assim, pois
existem situações que ressaltam a existência concreta dos autores aos olhos
das crianças leitoras. Eventos como contações de histórias ou lançamentos de
livros dão uma chance para as crianças constatarem que um livro tem, sim,
um autor, de quem os pequenos leitores podem, inclusive, aproximar-se para
conversar, perguntar sobre o livro lido ou por ler ou simplesmente pedir
um autógrafo... O autor que está por trás de um livro é, portanto, algo concreto,
mesmo para uma criança.
Por outro lado,
talvez o que algumas crianças amigas da leitura não saibam é que o objeto
“livro”, tal como lhes chega às mãos hoje (em dimensões variadas e com
ilustrações as mais diversas) não apenas tem uma história em si, mas passou
por transformações ao longo da história. E é justamente a história do
objeto-livro que é contada pela escritora Socorro Acióli em Bia que tanto
lia, recentemente lançado pelas Edições Demócrito Rocha.
Antes mesmo de
o leitor abrir o livro e mergulhar nesta deliciosa viagem pela história do livro
através dos tempos, defronta-se, já a partir da capa, com a menina Bia e
sua relação com os livros: a ilustração da capa apresenta a personagem (a menina
de cabelos azuis, na ilustração de Arlene Holanda) confortavelmente sentada
sobre livros, apresentados como reais e concretos: os livros aqui não são
desenhos de livros, mas fotografias de volumes de uma biblioteca. Vê-se desde
o início que realidade e ficção se misturam e se imbricam na composição da
história, já que a história da menina Bia, uma criação ficcional, é motivo
que conduz à história real (e material) do livro.
Abrindo o livro,
recebemos uma carta da autora, Socorro Acioli. Sim, porque por trás do livro
há uma autora. Nesta carta, Bia é apresentada e somos convidados a deixar que
a história “mexa com a gente, mude a nossa cabeça, ocupe nossos pensamentos”,
porque a boa leitura, prazerosa e reveladora, deve ser feita desse modo.
Bia é um exemplo de leitor que deixa os livros exercerem uma função modificadora.
Bia,
depois desta apresentação, é engenhosamente colocada em cena: trata-se de
uma leitora ávida, amiga de Dona Edite que, além de ser a bibliotecária da
escola, fora também uma ávida leitora quando criança. A identificação entre
as duas personagens já está colocada. As gerações se encontram, tendo como elo
a paixão pelos livros e pela leitura. As histórias de vida se entrelaçam.
Não por acaso, a história de Bia é temporariamente interrompida para que a
história de Dona Edite seja contada. São duas histórias de leitoras que vêm
antes da história do livro. Como a história de vida da bibliotecária se
liga às suas práticas de leitura e seu conhecimento sobre o objeto livro,
ela torna-se a voz que nos guiará (e a Bia também) pela fantástica história
do livro. Esta também é a própria história da transmissão da literatura
aos seus leitores através dos tempos: dos textos memorizados e recontados
para um público ouvinte (à maneira de Sherazade) até a invenção da imprensa
por Gutemberg, passando pelas tábuas de argila, pelo papiro, pelo pergaminho,
etc. Percorrem-se então os vários formatos nos quais a informação livresca
existiu.
Toma-se
conhecimento desta história pelo diálogo entre duas leitoras. Claro.
Como falar da história do livro sem falar em histórias de possíveis leitores?
Falar da história do livro é arriscar-se na história de como o homem foi
forjando maneiras de modificar o registro da informação cultural digna de
transmissão, assim como na história de como esta informaão foi apreendida.
Dona Edite
conta tudo isso a Bia, que, de tanto ler, já procurava um livro que não acabasse
nunca. Bia procurava a leitura que fosse um prazer sem fim, uma fonte perene de
informação e de aprendizado. Aqui, pode-se traçar um paralelo entre Bia e
a personagem de “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector. No conto
clariciano, a protagonista vive imaginando o livro mais que desejado,
As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Ao tê-lo nas mãos,
a menina também deseja que ele nunca acabe, na tentativa de torná-lo eterno.
Bia ainda não tem este livro eterno, sem fim; mas dona Edite oferece-lhe
algo equivalente: a história do livro, este objeto tão duradouro, cuja
trajetória nunca termina e está sempre a se renovar.
Bia, aliás
uma leitora inteligente, perspicaz e informada, está plenamente consciente
da constante renovação do objeto-livro: como garota antenada com as práticas
de leitura de seu tempo, ela conhece os mais recentes formatos em que os livros
são apresentados: disquete, cd, Internet... Interessantemente, a bibliotecária
cuida do passado do livro; Bia está atenta ao presente. Tão atenta, que ela
mesma experimenta um novo formato: imprimir um livrinho de poemas feitos
por ela no computador da escola. Sim, Bia faz poesia.
Bia também
sugere poesia. E então entra em cena o narrador. Ele conduz toda a história
da menina e seu passeio pela história do livro através de uma melodia poética
que associa o som do nome “Bia” a palavras de som semelhante, dando certa
musicalidade à narrativa. A associação não parece ser fortuita: na voz que
emoldura a narrativa, muitas das palavras que “rimam” com Bia são verbos no
pretérito imperfeito: lia, vivia, podia, sabia, aprendia, etc. Neste jogo
de palavras e sons, pode-se perceber uma outra associação: sendo o imperfeito
o tempo verbal que, entre outras coisas, pode expressar um passado duradouro,
parece que a infância, na figura da menina Bia, é aquele período pretérito
que deve permanecer, perdurar, tornar-se eterno como o livro que Bia pede
a Dona Edite. O narrador propõe uma voz poética para além da história do livro.
A experiência da leitura de textos literários é informação, mas, antes de tudo,
é experiência estética. E como não dizer que a experiência do contato com
a poesia existente nos textos literários não seja uma das forças motrizes
para a busca do prazer da leitura? E em Bia que tanto lia, a força
da leitura e sua permanência na história dos feitos humanos são mostradas
com uma leveza própria da poesia, não apenas por conjugar sons e sugerir rimas,
mas por revelar uma história que fascina a quem gosta de ler, por apresentar
um narrador divertido e surpreendente, por oferecer uma personagem cativante.
Bia talvez
seja a leitora que todo livro quer ter. Ou melhor: já que começamos falando
de autor, Bia talvez seja a leitora para quem todo escritor gostaria de
escrever livros, renovando cada vez mais essa história.
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| Dobras da Leitura Ano V - N.º 22 - out. 2004 |