Antonio L. Furtado, trad.

Aventuras da Távola Redonda

Vozes, 2003


os caminhos virtuais
da Idade Média


Peter O'Sagae
Mestre e Doutorando em Letras
pela Universidade de São Paulo



Quase ninguém mais se espanta quando se comenta que a realidade virtual era bem conhecida dos antigos, muito-tempo-antes do computador doméstico aparecer diante de nós. Esse místico amuleto moderno funciona maravilhas como auxiliar da memória, abrindo portos e horizontes como um sistema de navegação, por onde, por entre vozes, textos e aventuras várias, construímos relações e estabelecemos (novas) leituras. Assim, com dez narrativas-passagens pela matéria medieval, nos chega o livro-tradução Aventuras da Távola Redonda (Vozes, 2003), organizado por Antonio L. Furtado, professor do Departamento de Informática da PUC-Rio e um "autêntico cavaleiro" da Sociedade Internacional Arturiana.
Dos arredores de um passado imaginário aos dias de hoje, vamos aprendendo que Artur e seus cavaleiros não pertencem apenas a mundo geográfico fixo. Antes, personagens e aventuras revelam-se através de um intricado mapa de narrativas -- para graça e sorte de leitores cuja paixão é sentirem-se perdidos no texto (uma trilha que nunca finda) e sabem: o melhor encontro não surge na marcha adiante, mas se esconde-embrenhado que está em qualquer outro atalho. Dobrar a leitura é buscar os caminhos paralelos; demanda os leitores inventar/inventariar a própria rota.
Por essa razão, a idéia de navegação virtual faz parte do prefácio e das notas introdutórias deste livro. Assinado por Gilberto Mendonça Teles, o prefácio abre a jornada rumo à origem das narrativas arturianas: "No alto da Alta Idade Média, diante da tela dos universais que descortinam os horizontes intelectuais da época, o observador inicia a sua demanda. Clica..." e vai acessando as informações de um percurso não retilíneo, pulsando saltos no tempo e no espaço. Pouco a pouco, pontua-se uma paisagem geral da tradição literária em torno da figura do Rei Artur -- e será, sobre o fundo temático, que o autor da coletânea, durante a introdução das aventuras, permite-se à busca de um graal-de-links, indicando possíveis elos com narrativas de outros povos e países (ao sabor dos métodos de leitura comparativa).
Ao cavalgar para dentro de cada episódio, os leitores se verão às voltas com outro mistério: quem conta as aventuras? É a figura do narrador presente e invisível, ao lado dos bravos cavaleiros, ao lado também de quem lê, esporeando e jogando as rédeas da condução, ora ao futuro, ora ao passado... Em certo momento, acompanhando o valoroso Galvão na travessia de um rio, conosco comenta o narrador: Sobre essa água, quero dizer-vos o quanto antes que ninguém nunca viu tão feia, tão horrível nem tão cruel. Não sei o que vos dizer dela, e assim vos declaro, e não é nenhuma fábula, que esse é o rio do demônio. Exageros à parte, ou não, estejam os leitores, ali, para confirmar: os fatos e feitos heróicos, os afetos e efeitos aproximação de nosso narrador.
As dez aventuras são uma tradução em prosa de textos em francês antigo, mas não escondem recursos expressivos de grande sonoridade, no trato com as palavras. Pequenas rimas ou aliterações aliciantes conduzem a breves paralelismos na extensão de frases, malabarismos de idéias, sensações sinestésicas. Como não sentir a aspereza tátil de um brocado todo trabalhalhado de pedrarias, ou ouvir o compasso cansado daqueles que após dias de caminhada chegaram às cercanias de Carduel? Ainda o gracejo do narrador, ao término da prova do corno (com toda a ambigüidade): uma cornuscópia encantada que transforma água em vinho e, sem derramar, dá-se a beber aos maridos de esposas fiéis -- Quer lhes agradasse ou pesasse, não houve um que não se molhasse.
Dos caminhos virtuais aos atalhos de cada texto, a coletânea de Furtado reanima o mundo "eutópico" (bom lugar para o leitor) em sucessivos encontros entre homens e mulheres de raras qualidades. Rei Artur e sua Genevra, os sobrinhos Galvão e Caradoc, a obediente Guignier, Caio o senescal, o lendário José de Arimatéia, os eleitos pela bondade: Galaad, Boors e Persival, o infame Tristão, a bela e loura Isolda. São dias e noites no corte da lâmina da justiça, espadas e estradas, florestas, castelos, torneios, tudo o mais que vocês e eu sempre esperamos encontrar. Leitores andantes, à hora de banquetejar este livro, trago por minha a voz daquele servil narrador: Não quero demorar-me aqui a enumerar e descrever os pratos. Mas, sem mentira, a corte durou oito dias e, no momento de encerrar-se, o rei deu ricos dons aos cavaleiros e barões que todos saíram satisfeitos. Pois, então, boa viagem!

Dobras da Leitura
Ano IV - N.º 16 - out. 2003
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