Nilza Amaral
Meia lua e esmalte vermelho
uma história ingênua de amor e ódio

Writers, 2001


Na vida de muitas mulheres, há sempre um rio a correr paralelo, marcando de importância os momentos, as coisas que devem permanecer na memória, o presente do passado. Assim é com Luísa e seu cristalino Tenório, assim foi com sua avó italiana e o distante Tebere. Em muitas novelas, há também o fio do trem — e a moça de chapéu de abas largas, envolta no silêncio particular, seis anos longe da casa dos pais, vestida aos moldes do último figurino... é a meada, é a partida da década de 1950. Ou mais uma estação de chegada?

Na história que conta Nilza Amaral, no ritmo de flashback,
Luísa enfrenta os modelos e transgride as regras da sociedade, em uma pequena cidade do interior, ao mesmo tempo em que a Segunda Guerra se desenrola, feito capítulos transmitidos pelo rádio galeno. No entanto, as vitórias da menina que se transforma em mulher são a ela bem mais reais, pois verdadeiramente próximas. Às bonecas de rosto de porcelana e olhos de vidro, ela preferia o rio, os meninos, a peneira pescando girinos... e, nas águas do Tenório, aprenderá mergulhar em si mesma, na correnteza que a obriga a deixar a infância.

Ao longo de doze anos, o cenário da narrativa vai sendo pontuado com um sabor de crônica histórica, com descrições e comentários sobre usos, costumes e a moda que fazia a cabeça dos jovens... Dos astros do cinema, o primeiro cigarro, as balas de hortelã, os fogões elétricos libertando a cozinha da fumaça, a música e o desaparecimento de Glenn Miller, a invasão do Rock'n Roll... Nilza Amaral, mais do que contar uma época ou a descoberta do primeiro amor e suas conseqüências, nos mostra um ambiente em movimento — como Luísa, a personagem principal — o que certamente causa um interesse extra à leitura.

Linguagem simples, sem abusos estilísticos ou muitas digressões que venham dispersar o fio do enredo,
mais o tema das descobertas do crescimento e da assunção das responsabilidades diante da vida, fazem deste livro mais um exemplar do romance formativo de recuperação de uma memória de vida, mesmo que ficcionalizada. Recentemente,
a autora recebeu medalha de prata com O Florista, no Concorso Letterario Internazionale Marengo Doro, Itália, 2003.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Tudo isso não influía na minha vida e na de meus amigos, pensávamos nós. Continuava amiga dos meninos do rio, porém cada vez mais preferia ficar sozinha com o Anuar ao invés de estar com o nosso grupo, constituído na sua maior parte de filhos e netos de imigrantes pobres. Porém, uma dia tudo isso mudou. E por influência dos fatos da guerra mundial.
Usava agora as roupas das garotas da minha idade. Estava pegando corpo, como minha avó dizia. Minha mãe costurava saia godê-guarda-chuva, que me deixavam de cintura fina, e eu adora meias-soquetes e sapatos tipo mocassino. Às vezes uma boina colocada de lado, deixando meus cachos dourados de fora, dava-me um ar de artista de Hollywood. A blusa da moda era a do tipo Carmem Miranda, com elástico no decote e nas mangas.
Íamos ao salão de beleza, enrolávamos bobs nos cabelos, fazíamos a unha:
— Com meia lua
ou sem meia lua? »




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