Elvira Vigna
Coisas que os homens
não entendem


Companhia das Letras, 2002


Houve um tempo em que Elvira Vigna escrevia e ilustrava idéias para crianças e a gente se divertia com os livros de Asdrúbal, o terrível (1978-1983) e escorregava em suas palavras e imagens até A pontinha menorzinha do enfeitinho do fim do cabo de uma colherzinha de café (1983). Apontada pela crítica especializada com uma das autoras mais críticas e criativas, marcando presença pelo uso de uma verdadeira contralinguagem libertária, Elvira Vigna iniciou nessa senda ilustrando um título não-menos-que-provocativo: A pulga ninfomaníaca, de Quincas e Edu, no ano de 1969. Será que você já leu coisas assim?

Houve um tempo em que o romance policial era literatura não-muito-recomendável -- talvez por causa do desejo leitor de resolver e consumir rapidamente a trama, o gênero tido como produto precário pois perecível. Será que você já ouviu coisas assim? Esqueça porque o prazer da leitura não é algo linear. Ao contrário, segue rotas, labirintos, dispersão em movimento: uma história que vai se construindo, do início ao fim do livro, sob o ponto de vista da investigação; e mais outra história a ser reconstruída, contada e recontada quantas vezes forem necessárias até que o investigador se convença de tê-la compreendido. O romance policial vive num prisma de variações, história(s) dentro da história: personagens da primeira trama que são deslocadas para um cenário de possibilidades, reconfiguradas e atualizadas constantemente no desenho do crime encoberto. A narrativa fende-se em um exercício de perspicácia literária e o enredo assim reproposto funde-se com tudo aquilo que deveria permanecer rejeitado: histórias sem resolução, incompletas.

Coisas que os homens não entendem
-- e quais seriam elas?

A natureza do feminino ou do romance policial? Com o trabalho de Elvira Vigna, ambas as coisas são indissolúveis. Sem o roteiro do investigador, a narrativa é apenas reconstituição, esboço eternamente retocado pela narradora, num jogo de espelhos e de vozes que assume ("Deve ter sido assim", ela diz) assumindo versões nem sempre verdadeiras. O crime é um segredo do passado -- e melhor que descobrirmos o segredo, é saber que uma pessoa o possui... esta é a armadilha para o leitor: sentir-se traído+atraído pelas não-histórias, pelos despites organizados. "Mas mesmo vindo, voltando, eu, tão eu, me vi tentando escapar, inventar um caminho, uma saída, porque as chegadas me assustam."

Houve um tempo em que muito me perguntava sobre o enfim que separa uma obra destinada a crianças ou adultos. Será que você já pensou coisas assim? Não tenho mais a simplicidade do discurso direto como divisor. Crianças são complexas em sua linguagem particular... e vejo Elvira Vigna que transita entre as duas esferas do público. Nela, constante é a linguagem aguda e elaborada, uma oralidade encorpada em letras impressas que são como pautas métricas para um bafejo de som. E também há o ritmo, cadeia e pensamento, quebras do linear que garantem o prazer da retomada num ponto mais adiante: frase a frase, no outro parágrafo, ou no próximo capítulo. Mas é evidente que as Coisas que os homens não entendem não são para um menino, ou menina que seja. Mas é evidente também que não podemos esconder essas coisas do jovem leitor, o adolescente que deseja um algo mais dos livros, nos livros, sequioso por desvendar novos mistérios. Para decifrar, desmitificar, malícia, enfim.


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Ao lado, fragmento de
Coisas que os homens não entendem
de Elvira Vigna, p. 21.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Você salta no Curvelo e vira à esquerda e é perfeitamente possível você ficar, por anos a fio, sentada na sarjeta ou dentro de um carro estacionado, vendo as casas desbotarem e tornarem a ser pintadas, buracos se abrirem e serem fechados nos paralelepípedos, muros subirem, se cobrirem aos poucos de hera, e seria sempre a mesma rua e essa rua nem é mais a Dias de Barros porque nós todos temos dessas ruas para onde vamos, à noite, sozinhos na cama, uma rua onde nos sentamos, de noite na cama, para ver os fantasmas na calçada, as casas velhas, os edifícios cinzas, austeros, retangulares, e os ecos das vozes, algumas risadas, e os gritos. E, no meu caso, também um piano, e eu sei que indo lá, se for, vou mesclar aos sons de tudo o de um piano muito antigo, que erra e que recomeça e que erra outra vez, acertando, nos seus erros, a partitura que é a dele.
O edifício é do lado ímpar, que é o lado da encosta -- a cidade lá embaixo, envolta em uma bruma cinza-azulada. É esta a diferença, uma sobe, no vermelho, a outra desce, no cinza.
Então é isso. Eu que sempre acho que minha vida eu mesmo invento, eu que sempre acho que eu ainda não cheguei, não ainda, eu brinco uma última vez, andando por este calçadão da praia, brinco de me dizer que de repente não vou, em nenhum desses quinze, catorze dias. Vim de Nova York, larguei Eva, apartamento e equipamentos, mas não vou, em nenhum dos meus quinze, catorze dias, a Santa Tereza. Avião de volta, o plano B em vez de ficar de pé em frente ao edifício cinza, o pé começando a doer, eu lá, me sentindo boba, depois de ter pegado o 206, saltado no Curvelo e virado à esquerda. Pois se eu fizer isso, não o farei, eu terei então enfim chegado. E aí não vai haver mais nada e então, pronto, não vou. »




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