Elias José Cantigas de adolescer il. Evandro Luiz da Silva 16ª edição, 2003 Atual, 1992 Na poesia medieval, duas vozes sempre distinguiram as cantigas de amigo e de amor como se fossem feitas por jovens e incansáveis mulheres "coitadas" esperando retornar o amado ou por dóceis varões praticando a cortesia no tempo de ócio, longe do campo das batalhas. Elias José nos lembra que o poeta é um fingidor e inventa-se em dois eu-líricos para as cantigas de Maria e as cantigas de João: dispensando excessivos ritornelos e bordões, as Cantigas de adolescer retratam o universo de modernos donzéis, nossos adolescentes, na crise e na criação da própria identidade perante os enfrentamentos com a vida e com a linguagem. O resultado não poderia ser melhor -- e o lançamento da 16ª edição do livro vem justamente atestar a vitalidade do diálogo entre o autor e seus leitores. Para Maria, o idílio romântico é expectativa no exílio do quarto, lances olhares bilhetes, o vestido de Cinderela picotado por um jeans mais confortável e, de vez em quando, aquela vontade de se atirar numa lata de lixo, violar o tabu das horas e ainda brincar de bonecas. Ela sabe que é como "Ninguém com este corpinho / exato nos montes e vales". Para João, um poeta em projeto, o tempo de "chamar pro braço ou xingar a mãe" é passado que não mais combina com a vida de homem quase-feito: quer sons, nomes de mulher, momentos para pensar se "as dores do mundo / pedem canções / ou exigem ação?" Enquanto não cria asas nos pés, vive lá o boletim vermelho, a coragem e cara-dura que não chegam, as encucações do pai. |
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Em um estilo leve e simples, os poemas abrigam o universo da mídia e da moda, ídolos, bandeiras de protesto -- Carlitos e Chico Mendes, Beatles e Caetano Veloso, a revista de mulher nua, o primeiro sutiã, São Jorge e seu cavalo na lua, o mágico encantamento do "Espelho meu,
Referências literárias também estão presentes e as principais pistas são deixadas por Elias José, logo à entrada do poema "Abrindo o caderno de poesia", onde registra os nomes de Drummond, Bandeira, Quintana, Cecília e Pessoa. Gonçalves Dias aparecerá mais adiante, no quarto de Maria feito um país de exílio -- e Arabela que, na infância conhecemos à janela do poema "As Meninas", de Cecília Meireles, faz uma sedutora aparição no imaginário adolescente de João, do autor e nós-leitores.espelho meu, sei que não há outra mais bela do que eu". « Elias José Cantigas de adolescer |