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os esqueletos de Angela Lago
Tânia M. Piacentini
Graduada em Letras (UFSC) Doutora em Educação (UNICAMP)
Quando eu era menina, lá na pequena Vila Residencial em Siderópolis, tínhamos uma vizinha especialista em contar histórias de assombração, almas do outro mundo, lençóis que dançavam pelos campos, gritos que se ouviam na escuridão, fantasmas a cavalo nas noites de lua cheia... À noite, a meninada se reunia na casa dela, respiração em suspenso, todos sentados grudados uns aos outros, muitos de mãos dadas, ouvindo as muitas "invencionices da Dona Cláudia", como diziam os adultos, os da minha casa também. Mas a freqüência era sempre grande, e o maior sufoco era a volta para a casa, correndo sem olhar para trás, ninguém querendo ser o último da fila para ter a certeza de estar protegido e não ser agarrado por mãos esqueléticas ou garras cabeludas. Quantas vezes não tivemos que deitar, no chão da sala mesmo, meus irmãos e eu, para recuperar o fôlego após fechar a porta à chave, e ainda juntos!
Lembrei com carinho daquelas noites e revivi o clima de prazer e ansiedade, a vontade de sentir medo e depois vivenciar o alívio, lendo Sete Histórias para sacudir o esqueleto, de Angela Lago (Companhia das Letrinhas, 2002). Autora e ilustradora justamente consagrada e reconhecida pela qualidade do seu trabalho na área da literatura destinada aos jovens leitores, a arte de Angela se espraia também pelo design na área da feitura do livro.
Responsável pelo projeto gráfico, capa, texto e ilustrações, a seleção de cores - cinza-prata, cinza-chumbo, preto, o branco-marfim dos ossos -, os traços tremidos dos desenhos, quase garatujas infantis; o tamanho, o tipo e a cor das letras; contrastes harmonizados nos reflexos do brilho do papel: isso, somado ao também reconhecido cuidado editorial da Companhia das Letrinhas, faz desse livro um exemplo feliz da conjugação de tantos talentos.
E tudo envolto em humor, que eu chamaria de negro-branco-de-medo, salpicado de ironia e auto-ironia: seu nome na capa já vem emoldurado por um risonho esqueleto em charmosa pose, enquanto dois outros chacoalham os ossos em passos de dança. A numeração, reservada às páginas de início dos contos e a poucas outras, ora vem sobre uma lápide, ora está sobre o desenho ou então é o rabo de um dos bodes da história da espera de setset. Sutilezas da artista, que ainda oferece no traço e na economia dos desenhos uma narrativa complementar, embora tão enxuta quanto os "causos" que conta. São contos curtos, todos acontecidos com gentes e almas de Bom Despacho, de Luzes ou de outras praças, espertos, desconfiados e mesmo corajosos, como a Tia Potoca, esta de verdade, como revela a autora na conversa final com os leitores.
Boa mineira, Angela reitera a fidedignidade das histórias que afinal lhe foram contadas por seu pai, mas mantém o suspense e a dúvida da verossimilhança, com o jogo do sentido dos nomes das cidades e o da tia que enfrenta com deboche o fantasma que carrega seus chinelos: "Os chinelos você pode levar, que o meu pai é sapateiro". Afinal, pode ser que sim, pode ser que não, mas ler um livro assim, é pra lá de bom! Bendito pai da Angela, bendita Dona Cláudia e tantos outros anônimos contadores de histórias!
E bendita Angela, por nos aquecer a alma mais uma vez, agora com uma madeleine em forma de esqueleto!
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