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o Escavar do Imaginário em
INDO NÃO SEI AONDE
BUSCAR NÃO SEI O QUÊ
de Angela Lago
Rosemarie G. Cordioli
Mestre em Letras - Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa USP
A obra de Angela Lago narra a trajetória de “um menino muito zonzo. Vira e mexe, ele vinha com a mesma resposta: -- Sei não". De imediato, o vocábulo zonzo caracteriza a ingenuidade do menino que se tornou conhecido pelo nome de Seinão. E, justamente ele foi se apaixonar "por uma princesa muito sabida, que adorava fazer piada à custa dos outros.” Aproveitando-se da falta de malícia de Seinão, a princesa propõe-lhe, jocosamente, casamento, como recompensa a uma tarefa a ele designada: ir não sei onde e trazer-lhe não sei o quê. Seinão, caracterizado como o bobo da corte, que naturalmente se expõe e é motivo de zombaria, aceita a incumbência e sai disposto a cumpri-la.
Como personagem protagonista, Seinão é, na esfera da ação do herói, segundo os estudos de Propp, aquele que deixa o lugar de origem, envolvido numa aventura marcada pelas provas difíceis que precisa superar. A tarefa de Seinão relaciona-se à conquista do objeto mágico, que não precisa, dentro da narrativa, especificamente, ser considerado mágico, mas portador de um caráter misterioso. Esse aspecto aplica-se ao conto, uma vez que o conteúdo do objeto que é destinado a Seinão conseguir jamais foi revelado -– “ninguém neste mundo sabe o que tem um embrulho do diabo...”, salienta o narrador. Assim, o embrulho pode conter inúmeras surpresas ou revelações e, na narrativa, tornar-se o responsável direto pela sorte do herói, que alcança a realização plena -– o amor e o respeito da princesa.
O povo, encarnando um dos antagonistas de Seinão, tenta ludibriá-lo quando é questionado a respeito da “estrada para ir a não sei onde (...) Pois se perguntava o caminho -– a estrada para ir a não sei onde –- caíam na risada ou mandavam ele ir para o inferno.” Mas, a Corte e o povo, inicialmente opositores do protagonista, tornam-se atores coadjuvantes quando, pela espontaneidade, auxiliam Seinão no seu encontro com o Diabo e no posterior desfecho feliz da estória.
A presença do riso, mais propriamente, o riso que poderia representar zombaria, na narrativa, está ligado à mentalidade do homem medieval, que atribuía ao riso
“... um profundo valor de concepção do mundo (...) uma das formas capitais pelas quais se exprime a verdade sobre o mundo na sua totalidade, sobre a história, sobre o homem ...”
Compreende-se, a partir da citação, que o conceito de riso, na Idade Média, está inserido dentro do universo do extremamente importante, marcado pelo princípio bipolar da degradação e regeneração, embora a insistente posição do Feudo-Clericalismo, da época, em atribuir ao cômico a extra oficialidade, reservando às verdades consideradas primordiais os tons sérios. Ensina-nos Bakhtin que
“... o tom sério afirmou-se como a única forma que permitia expressar a verdade, o bem, e de maneira geral tudo que era importante (...) O medo, a veneração, a docilidade, etc., constituíam por sua vez os tons e matizes dessa seriedade.”
O ato de rir no conto não assume, portanto, caráter destrutivo. O povo ri do herói porque a designação que recebe e sua pronta aceitação é, de fato, naquele momento narrativo, hilária. A postura jocosa das personagens, diante do comportamento ingênuo do aldeão, que não percebe sequer o ludíbrio que lhe destinam, obstinado em cumprir a tarefa e receber o prêmio, confirma o clima de liberdade e espontaneidade que caracterizava eventos populares típicos da Idade Média. Seinão é o herói; os populares, o público, que ri, emociona-se, chora, dependendo do que assiste. Por outro lado, o riso, a zombaria popular dispensados a Seinão, dentro da construção narrativa, só vem reforçar, no final, o valor da vitória. O herói é escarnecido quando aceita o desafio. A extensão do descrédito que recebe está proporcionalmente associada à extensão da aclamação final.
Obstinado, então, pela tarefa, o protagonista não percebe a brincadeira e ignora a postura jocosa das personagens.
Na condição de tolo, a personagem não possui habilidade para analisar o pedido da princesa. Na aventura empreendida, a casualidade o fez chegar ao inferno, denominado, ironicamente, pelo demônio de “não sei onde.” A aceitação passiva de sua presença ao inferno e o tom irônico empregado pelo diabo denotam uma reação às avessas. O leitor então, instigado por essa inversão, é conduzido de maneira lúdica a outros questionamentos, cujas respostas ele não encontra porque está na intencionalidade do narrador deixá-las em suspense. A obtenção de “não sei o quê” também é acidental, logo, Seinão é herói às avessas.
A inclusão, no texto verbal, de vocábulos tais como pasta, arquivo e atualização, comuns à linguagem da Informática, está em desacordo com o contexto espaço-temporal medieval em que se passa a estória. Trata-se então, de uma articulação da autora que procura, descontraidamente, entremear elementos pertinentes a dois momentos históricos distintos: a era tecnológica, como canal veiculador de informação e, num recuo no tempo, a incorporação da figura do demônio à estrutura narrativa. Este registro do tempo –- a atualidade em fusão com o medieval cria, na mente do leitor, uma possível associação entre a Informática e o Inferno gerando um tom de humor, uma vez que o capeta, moldado aos padrões da modernidade, utiliza-se dos meios tecnológicos para arquivar os males do mundo.

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No conto, enquanto gênero, a ação ocorre geralmente “... num país distante, longe, muito longe daqui, passa-se há muito, muito tempo, ou então o lugar é em toda e nenhuma parte, a época sempre e nunca.” Assim também a estória se passa: parcialmente dentro de um certo castelo e nas dependên-cias do inferno. Nesse tempo de aventuras, assinalam-se momentos, “hiatos extratemporais” que correspondem à organização do enredo. O texto informa, como referencial de tempo que “... durante dias, a diversão do palácio foi caçoar do bobo...” e que o diabo, numa bela tarde “... acordou com saudades das novidades de sua seção”; enfim, situações, elementos que não contribuem em nada para a vida do herói. Ainda que o conto não aluda à ciclicidade como fator de retratação do cotidiano, tais fragmentos expressam linearidade na relação entre a causa, o motivo que anima a efabulação
-– Seinão vai ao palácio e revela sua paixão à princesa -– e a conseqüência trazida pela causa –- o desafio, a conclusão da tarefa e o final feliz. O retorno ao palácio, de posse do embrulho, significa para a personagem a aceitação pelo grupo social, aprovado pela Corte, não mais como o “... bobo que tinha ido atrás do impossível.”
A obra que trabalha cores fortes e contrastantes, alude ao Fauvismo. As composições, apresentadas na tonalidade vermelha, estariam relacionadas à indumentária do rei e do próprio capeta, se considerarmos a proposta de Kandisnky sobre a linguagem e a ação das cores sobre o observador. Poderíamos ainda, de acordo com o pensamento medieval, associar a cor vermelha ao conceito popular de inferno –- local escuro onde estariam os pecadores sentenciados respondendo, através do “fogo eterno”, às suas faltas. O amarelo e o verde corresponderiam à movimentação dos cenários que retratam aldeias e descampados. As três tonalidades: vermelha, amarela e verde, devido à sua forte intensidade, aproximam o olhar do leitor à cena, numa tentativa de resgatar a estória, ocorrida em um tempo distante.
Os desenhos, apresentando cores sobrepostas, não excluem a particularidade de cada traço. O pseudo-despojamento – contorno pouco definido, apresentando-se rasgado, rabiscado, desvela uma proposta da autora: “estar experimentando e brincando com tintas e pincéis feito criança”. Angela Lago resgata na obra, em nível ilustrativo, esta característica da criança – o rompimento de padrões pré-estabelecidos, a flexibilidade e a liberdade no momento de criar. Interligando-se com o modo simples de ser, principalmente, da criança que introjeta a proposta como mais uma brincadeira – o de fazer o outro de bobo, semelhante a qualquer outra que faz parte de seu mundo povoado de sonhos, estão a alegria e o riso espontâneos, trazidos pela tradição oral, pelo contar e recontar da estória.
Na esfera do verbal, a coloquialidade evidencia, além do comporta-mento do homem simples, o comportamento infantil: “E resolveu ... Bem, antes que o diabo descobrisse que ele também tinha aprontado uma embrulhada com os tais arquivos ... pernas para que te quero!” Vale tudo na brincadeira quando o assunto é pregar uma peça.
O final feliz, que culmina com o casamento entre Seinão e a princesa, consiste em mais um dos aspectos relativos ao riso. A idéia de que tudo está bem, que a ordem e o equilíbrio foram novamente resgatados, faz parte da uma visão cosmogônica e mítica do homem medievo-moderno. Para Seinão houve, após o cumprimento da tarefa, a recompensa, a concretização de seu desejo. A personagem deixa transparecer que está feliz por ter cumprido a tarefa; não demonstra que ter ido ao inferno, conversado com o diabo, manuseado arquivos de tal porte, como o que alistava os pecados dos homens, tenha tido importância maior no seu destino do que se casar com a princesa. Em outro nível de leitura, o final feliz poderia nos remeter à preservação do imaginário medieval através dos mitos, dos ritos, do contar, do improvisar.
E ainda, na manutenção dos grandes mistérios que povoam o espírito popular medieval, aguçando a curiosidade, motivando brincadeiras, jogos, estimulando a imaginação do homem, através daquele “segredo” contido no embrulho vindo do inferno. Além disso, a figura representativa de Seinão alimentaria a crença na renovação permanente e na constante reparação do mal e da injustiça, fatores que levam o homem a acreditar no final feliz, apaziguado e conveniente a todos.
Dentro deste mesmo contexto, podemos atentar para outro traço parodístico da obra, quanto ao final feliz.
Sobre as "reais" intenções da princesa com relação ao jovem são apenas evidentes no início do texto, enquanto desejo seu de fazer piada à custa dos outros. Porém, diante do sucesso do herói, a princesa estaria obrigada a casar-se com ele, concordando e cumprindo as regras de um jogo estabelecidas por ela mesma. O aventureiro, não mais o bobo da Corte, demostra perspicácia e sabedoria, conquistando, de vez, o amor da princesa – aspecto duplamente sinalizado, na última página, pela soma de signos verbal e visual:
Pois é: Seinão está muito bem casado e o embrulho segue embrulhado!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
:: BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média. trad. Yara Frateschi. 4.ed. São Paulo-Brasília, Edunb, 1999.
:: JOLLES, André. Formas simples. trad. Álvaro Cabral. São Paulo, Cultrix, 1976.
:: KANDINSKY, Wassaly. Do espiritual na arte e na pintura em particular. trad. Álvaro Cabral. 2. ed. São Paulo, M. Fontes, 1996.
:: PROPP, Vladimir. Comicidade e riso. trad. Aurora F. Bernardini e Homero F. de Andrade. São Paulo, Ática, 1992.
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