Ganymédes José

Amarelino

il. Grace Waddington
Moderna, 1982


os Meninos
estão por aí


Peter O'Sagae
Professor de Literatura Infantil
Mestre em Letras (USP)



Pouco importa idade, cor da pele ou dos olhos: os meninos ainda estão na rua: dos grandes centros urbanos, das médias cidades, das pequenas também. Infância, violência, crime é notícia, debate, vergonha, medo, matéria literária. E boa centena de livros para crianças e jovens persegue e dá nome aos personagens anônimos de nosso cotidiano, na linha da denúncia social: vertente descortinada aos poucos a partir dos idos de 1960, por autores que desejavam uma literatura participante, como Odette de Barros Mott. No entanto, seria somente em 1972 que a autora daria forma para a degradação urbana através da narrativa de A Rosa dos Ventos. Em 1975, aparece Lando das Ruas, de Carlos de Marigny e, desde então, os meninos (de rua) moram também em livros: do amargo Pivete, de Henry Correia de Araújo (1977), ao lírico Os Meninos da Rua da Praia, de Sérgio Caparelli (1979), muitos personagens serão delineados por outros escritores que se dedicaram ao tema, como Ganymédes José, Giselda Laporta Nicolelis e Raimundo Matos de Leão. Três olhares, três percepções da realidade.
Amarelinho é o personagem-título da obra de Ganymédes José. O menino é miúdo e desconjuntado, joelhos que mais parecem bolas de tênis, loiro magro e anêmico, de olhos azuis descorados. O livro é prêmio nacional de literatura infantil, conferido pela prefeitura de Belo Horizonte MG, o "João de Barro" 1982.
Com marcada delicadeza, o autor trata de colocar no papel a vida de um menino acostumado a entrar pelo buraco do vitrô das casas, antecipando a entrada do bando. E ele tem apenas 8 anos...
      Avistou os amigos sentados ao pé do cruzeiro: Pé de Chumbo, Nanico e Pavio. Pé de Chumbo, era um multato gordo, briguento, que tinha um canivete de aço. Roubado, lógico! Era ele o líder do grupo. Por causa do canivete. Depois, tinha o Nanico baixinho, forte, moreno de cabelo comprido e ensebado. O Pavio era preto de nariz achatado, o mais alto do bando. O Pavio parecia um corisco, era o mais veloz na corrida. O Nanico? Apesar de pequeno era esperto como o diabo. Ele sempre arrombava as fechaduras ou, tirando os pinos das dobradiças, abria as portas. Contava que, uma vez, tinha feito uma bomba. Podia ser verdade, o Nanino tinha um "cuca" ótima, consertava até rádio. Como aquele que tinha roubado de um fusquinha.
      O Amarelinho não possuía a habilidade deles. E, se continuava no bando, era porque, sendo pequeno, passava pelos vãos dos vitrôs.
Um sonho, o Amarelinho tem: porque deseja ser gente importante: ladrão de bancos. E, quando crescesse, teria o retrato estampado nos jornais. Teria também uma metralhadora e pápápápápá em todo mundo. Seria um herói, como os bandidos que via na televisão, do lado de fora da loja... Talvez pudesse ser realmente como eles, caso essa vertente da literatura não estivesse comprometida em fazer pensar uma crítica. Neste livro, a infância e seus sonhos permancem inalterados. Mudaram apenas as condições que despertam os sonhos de uma criança. Ganymédes José fala de inocência. E os sonhos se realizam de modo parcial e em oposição ao destino reservado ao personagem: Amarelinho consegue dinheiro para comprar uma metralhadora de brinquedo, "que é só pra filho de gente rica". Mas será que era somente um brinquedo?
      — Ele foi preso — informou o delegado.
      — Tô vendo...
      — A senhora não quer saber o motivo?
      — Por quê? — perguntou sem o menor interesse.
      — Porque furtou dinheiro  para comprar uma metralhadora de brin-quedo. A senhora sabia que seu filho furtava?
      — Não.
      — Nem nunca falou para ele que furtar é crime?
      — Não.
      — Onde está o seu marido?
      — Não tenho marido,  ele me abandonou antes de nascer o menor-zinho — e mostrou outro loirinho sentando no chão. O delegado suspirou. Adiantava falar mais alguma coisa para aquela mulher?
      — Vou ter de levar o Amarlinho — declarou.
      — Tá bom...
      — Para a FEBEM — explicou. — A senhora não diz nada?

Giselda Laporta Nicolelis

A Saudade da casa do pai

il.Hector Gomez
Valelivros, 1992

Como Amarelinho, o menor L.S. também começou a vida passando pelo vão do vitrô das casas. Uma vida que conta uma temporada na mesma FEBEM e agora está para terminar: este é um jovem ameaçado de morte por um grupo de extermínio em A Saudade da Casa do Pai, escrito por Giselda Laporta Nicolelis e publicado em 1992. O livro traz Lenilson como narrador de seus próprios caminhos, como aluno e professor na escola do crime:
      A minha vida é um barato complicado, tenho só 17 anos mas muita coisa pra contar, meu camarada... garanto que não vai nem acreditar.
Não é papo não, tem coisa mesmo de arrepiar. Sacomé, quando a gente sai muito cedo de casa, cai no mundo, se ferra feio... não tenho vergonha de dizer... a minha casa agora é a rua... tudo o que sei aprendi na rua mesmo... com meu bando... é os garotos da rua como eu... o menor tem 10 anos, quer dizer, ele tinha.
Problema ampliado pela violência que gera violência e o envolvimento com as drogas, Giselda não mediu esforços para furtar da realidade uma literatura impactante. Merece destaque o atento trabalho de linguagem da autora pois, através da fala de Lenilson, trouxe todo um palavreado que recria a atmosfera das ruas, a tensão dos personagens. No final do livro, há um glossário de gírias empregadas no texto.



Raimundo Matos de Leão

BraçoAbraçoo

il. Walter Caldeira
Saraiva, 1998

Não menos conturbada é a vida de Tonico, personagem de Raimundo Matos de Leão em BraçoAbraço, de 1998. Do dia-a-dia entre o barraco e a escola, a merenda e uma pelada no campinho, Tonico é atirado ao abandono das ruas ao ser deixado para trás pela mãe e a irmã mais velha... Mas, para ele, a condição de menino de rua é apenas temporária: o autor não se omite em oferecer uma possível ventura, um crescimento firmado na solidariedade e no interesse civil em promover outros finais para uma história igual (ou diferente) a tantas outras.
Raimundo Matos de Leão também se ocupa de temas próprios da adolecência, como tomar consciência do mundo (tal como se apresenta no momento) e das amizades que podem se transformar em um primeiro amor — amargurado, é bem verdade, sendo descoberto no ambiente prático e praticável nas ruas de uma grande cidade. O encontro:
      — Como é teu nome?
      — Antônio, mas todo mundo me chama de Tonico.
      — Podia ser Tuim. Você tem cara de passarinho!
      Ele riu do disparate, mas até que gostou.
      — Meu nome é Berê.
      E foram andando em busca do pasteleiro que empesteava a rua com o cheiro do óleo velho. Aproveitaram o momento para charlar. A confiança mútua fez com que se abrissem. Ela, mais resistente; ele, mas solto, confidenciava. Negou apenas a idade, aumentando-a de doze para dezesseis. Ela duvidou, mas ele insistiu e ficou por isso mesmo. Que importância tinha a idade dele diante da vida que levavam? Nem documento tinha para provar. Ela, treze anos, na rua desde os sete, sentia-se bem mais velha.
Abrindo o livro, a frase de Antonio Machado como epígrafe — "Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao andar", deflagra uma visão sobre os acontecimentos a serem narrados: há fortemente um elogio ao esforço pessoal, embora a sorte venha sorrir, mais generosa, para este menino que conseguirá sair da rua.
Três perspectivas sobre o mesmo tema: cada obra exige de seu leitor uma reconstrução, diferente, do mundo. Lembramos que a narração é uma forma de interpretação do cotidiano e o que nossos autores fazem é oferecer seu modo particular de sentir e pensar os fatos. E aqui temos a ignição para uma dinâmica de leitura em sala de aula: aproximando-se do assunto pautado, discutindo as idéias centrais, as informações que são transmitidas e as realidades que são filtradas em cada livro. A palavra de ordem é "confrontar" o trabalho dos autores, promovendo um painel que busque assinalar as similidades e divergências, os pontos de contato ou continuidade de uma história à outra e também os rompimentos que as obras oferecem com as opiniões mais generalizadas.
Com isso, poderemos transitar para um trabalho de linguagem, o que é muito desejável quando nos debruçamos sobre a literatura para crianças e jovens, recuperando o estilo dos autores: a simplicidade espontânea de Ganymédes José, a velocidade coloquial de Giselda Nicolelis, a poesia escondida de Raimundo Matos de Leão. Quais as palavras e imagens que são recorrentes, onde elas estão mais fortes? qual a riqueza expressiva conquistada em cada elaboração? o que causa surpresa? quais os contrastes e como eles foram construídos? como se registram os níveis de oralidade, na fala dos personagens e no diálogo que o narrador trava com seu leitor... é necessário que se capte, além do conteúdo, as formas literárias. É isso: ora bate canela que eu quero ver!



P.S.: ainda sobre meninos de ruas e outras questões sociais na literatura para crianças e jovens da década de 70, ver o capítulo de Lajolo e Zilberman: "A narrativa infantil em tom de protesto", no livro Literatura Infantil Brasileira: histórias & histórias (Ática, 1988: 136-40).

Dobras da Leitura
Ano I - N.º 4 - fev. 2001
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