Ô de Casa,
desDobra Leituras
Peter O'Sagae
PROFESSOR DE LITERATURA INFANTIL
Mestre em Letras pela Universidade de São Paulo
A gente abre o livro de capa vermelha, atrevessando mesmo a
janela com lua e vai sendo tomado por uma impressão de estar
em uma casa com tijolos feitos de imaginação... logo-logo,
começam a bater na porta as palavras do texto-título
Ô de Casa.
Todos sabemos que livro não é Parque, não é Circo,
não é Recreio: livro é Livro, um lugar onde moram e brincam
as palavras, principalmente quando se tem à mão uma obra
lúdica como este terceiro livro de Eloí Elisabet Bocheco. E
a autora se faz anfitriã para nos apresentar a palavra Honga
Bonga Longa.
Pode entrar!
Então, é hora de conhecer os cômodos -- quer dizer: os poemas:
21 peças de singeleza, festa e sons. São versos que resgatam as
brincadeiras populares a todo instante, um baú generoso de
intertextualidade que a autora abre para seus leitores.
Quem não se lembrar de outros textos, por último há de
ficar.
Tal exercício de verificar ou investigar o diálogo entre textos,
numa ciranda sem fim de referências, é o que hoje nos ajuda a
formar e fortalecer uma consciência de metalinguagem. Pois
nenhum texto vem ao mundo "numa inocente solitude", como diz
sabiamente o lin-güísta francês Dominique Maingueneau. Essa
também é a tônica dos poemas de Eloí.
Passa Anel, Costumes, Dúvidas, Tá pronto
seu Lobo?, são os exemplos mais fáceis de pegar conversando
com a tradição oral: assim ora é um ditado, ora um jeito
que o povo tem de falar as coisas, ou a rima de fazer roda girar.
Mas a autora vai além, resgatando formas populares, como
o travalíngua Prejuízo, de encontros consonantais DR FR PR; as quadrinhas que constróem Fácil,
Fácil ou Veio de Cima; os esquemas de jogos em
pergunta-resposta: De Outra Coisa e Camaleão Rosado;
a lengalenga solar de Martina.
Poesia para a voz contar: a surpresa e o humor estão sempre na
curva da pausa: em cima de cada vírgula, no cabo de guarda-chuva
da interrogação, no pé do ponto exclamativo!
E o que é delicado em verso, é delicado também nas ilustrações
mínimas de Gisele dos Santos. Traço leve, risco preto na
página branca, um pouco de massa cinza. Sem repetir o verbal,
por vezes, ela vem e brinca com uns passarinhos que pousam em
palavras ou fazem letrinhas voar.
Ô de Casa é assim: bolhas de sabão no jardim!