Eloí Elisabet Bocheco

Ô de casa

il. Gisele dos Santos
Grifos, 2000


Ô de Casa,
desDobra Leituras


Peter O'Sagae
PROFESSOR DE LITERATURA INFANTIL
Mestre em Letras pela Universidade de São Paulo



A gente abre o livro de capa vermelha, atrevessando mesmo a janela com lua e vai sendo tomado por uma impressão de estar em uma casa com tijolos feitos de imaginação... logo-logo, começam a bater na porta as palavras do texto-título Ô de Casa.
Todos sabemos que livro não é Parque, não é Circo, não é Recreio: livro é Livro, um lugar onde moram e brincam as palavras, principalmente quando se tem à mão uma obra lúdica como este terceiro livro de Eloí Elisabet Bocheco. E a autora se faz anfitriã para nos apresentar a palavra Honga Bonga Longa.
Pode entrar!
Então, é hora de conhecer os cômodos -- quer dizer: os poemas: 21 peças de singeleza, festa e sons. São versos que resgatam as brincadeiras populares a todo instante, um baú generoso de intertextualidade que a autora abre para seus leitores. Quem não se lembrar de outros textos, por último há de ficar.
Tal exercício de verificar ou investigar o diálogo entre textos, numa ciranda sem fim de referências, é o que hoje nos ajuda a formar e fortalecer uma consciência de metalinguagem. Pois nenhum texto vem ao mundo "numa inocente solitude", como diz sabiamente o lin-güísta francês Dominique Maingueneau. Essa também é a tônica dos poemas de Eloí.
Passa Anel, Costumes, Dúvidas, Tá pronto seu Lobo?, são os exemplos mais fáceis de pegar conversando com a tradição oral: assim ora é um ditado, ora um jeito que o povo tem de falar as coisas, ou a rima de fazer roda girar. Mas a autora vai além, resgatando formas populares, como o travalíngua Prejuízo, de encontros consonantais DR FR PR; as quadrinhas que constróem Fácil, Fácil ou Veio de Cima; os esquemas de jogos em pergunta-resposta: De Outra Coisa e Camaleão Rosado; a lengalenga solar de Martina.
Poesia para a voz contar: a surpresa e o humor estão sempre na curva da pausa: em cima de cada vírgula, no cabo de guarda-chuva da interrogação, no pé do ponto exclamativo!
E o que é delicado em verso, é delicado também nas ilustrações mínimas de Gisele dos Santos. Traço leve, risco preto na página branca, um pouco de massa cinza. Sem repetir o verbal, por vezes, ela vem e brinca com uns passarinhos que pousam em palavras ou fazem letrinhas voar.
Ô de Casa é assim: bolhas de sabão no jardim!

Dobras da Leitura
Ano I - N.º 3 - out. 2000
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