Ricardo Azevedo

Lúcio vira bicho

Cia. das Letras, 1998


de Ricardo Azevedo,
Lúcio Vira Bicho


Peter O'Sagae
PROFESSOR DE LITERATURA INFANTIL
Mestre em Letras pela Universidade de São Paulo



Acostumado com as histórias populares de magia que vem recolhendo e adaptando ao longo de sua carreira literária, Ricardo Azevedo nos envereda em um novo trabalho que mescla a iniciação de jovem à vida, motocicleta, estradas, causos fantásticos, princesas, rei, o diabo... O personagem principal, Lúcio, acaba de prestar exames para o vestibular e, para um merecido descanso, viaja até a cidade de Hepacaré, cravada no Vale do Paraíba, entre Guaratinguetá e Queluz, Cunha e Piquete. Lá tem início suas aventuras, tornando-se um caminhante de si mesmo, impedido de falar com as demais pessoas, conhecendo melhor sua paisagem interna... Lúcio sofre uma transformação, Lúcio vira bicho...
Na breve nota introdutória, o autor diz que seu texto é inspirado em Apuleio que deu ao mundo ocidental o clássico O Asno de Ouro (ou Metamorfoses), provavelmente escrito no Século Segundo depois de Cristo. Mas não se trata de mera transposição do original para os dias atuais: Ricardo Azevedo resgata alguns trechos, outros inventa completamente, combinando e conduzindo os fatos com sua veia de experiente contador, passando para o papel a vocalidade expressiva de nossa gente... o leitor é sempre requisitado, estabelecendo com o narrador um contrato de fidúcia: o ouvinte ocupa uma posição estratégica em relação à narrativa, elo de confiança neste espaço "intersubjetivo" que se trama.
Ponto alto, o foco em primeira pessoa permite essa aproximação exata, identificação de pensamentos e sentimentos, de uma a outra parte. Mas Lúcio também é um ouvinte atento, conhecendo outras estórias do tempo do Era uma Vez que se introduzem à sua história; enfim, uma literatura de encaixe, caixa de surpresas como vem acontecer em As 1001 Noites de Scheherazade...
Desta forma, vozes se entrecortam e amoldam-se: Lúcio-narrador, Lúcio-ouvinte, o leitor-leitor, o leitor-ouvinte... e também Ricardo-escritor e o narrador-Azevedo que não deixam escapar o detalhe surpreendente, ora pela revelação indignada dos fatos, ora pelo humor próprio dos episódios vividos pelo personagem e suas andanças com seqüestradores, artistas de circo e de teatro, caminhoneiros, noivas roubadas, assassinos de cães, falsos religiosos, os diferentes amores com Mônica, Conceição e a misteriosa Alzira, capaz de reconhecer, debaixo de sua aparência, o sujeito-essência que nela se esconde.
Leitura para qualquer idade, a despeito da chancela Juvenil, Lúcio vira Bicho resgata não apenas a tradição, enquanto elemento histórico e antigo, mas atualiza o ritual e o costume da estória bem tramada, envolvente, que deixa livre nossa imaginação e os questionamentos próprios da vida, da sorte e do destino, do que nos chega como alegria ou fatalidade. Metamorfoses do Mundo.

Dobras da Leitura
Ano Ano I - N.º 1 - abr. 2000
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