de Ricardo Azevedo,
Lúcio Vira Bicho
Peter O'Sagae
PROFESSOR DE LITERATURA INFANTIL
Mestre em Letras pela Universidade de São Paulo
Acostumado com as histórias populares de magia que vem recolhendo e adaptando ao
longo de sua carreira literária, Ricardo Azevedo nos envereda em um novo trabalho que mescla a iniciação
de jovem à vida, motocicleta, estradas, causos fantásticos, princesas, rei, o diabo... O personagem
principal, Lúcio, acaba de prestar exames para o vestibular e, para um merecido descanso, viaja até a
cidade de Hepacaré, cravada no Vale do Paraíba, entre Guaratinguetá e Queluz, Cunha e Piquete.
Lá tem início suas aventuras, tornando-se um caminhante de si mesmo, impedido de falar com as
demais pessoas, conhecendo melhor sua paisagem interna... Lúcio sofre uma transformação,
Lúcio vira bicho...
Na breve nota introdutória, o autor diz que seu texto é inspirado em Apuleio que deu
ao mundo ocidental o clássico O Asno de Ouro (ou Metamorfoses), provavelmente escrito
no Século Segundo depois de Cristo. Mas não se trata de mera transposição do original para os dias atuais:
Ricardo Azevedo resgata alguns trechos, outros inventa completamente, combinando e conduzindo os fatos
com sua veia de experiente contador, passando para o papel a vocalidade expressiva de nossa gente...
o leitor é sempre requisitado, estabelecendo com o narrador um contrato de fidúcia:
o ouvinte ocupa uma posição estratégica em relação à narrativa, elo de confiança neste espaço
"intersubjetivo" que se trama.
Ponto alto, o foco em primeira pessoa permite essa aproximação exata, identificação de pensamentos e sentimentos, de uma a outra parte. Mas Lúcio também é um ouvinte atento, conhecendo outras estórias do tempo do Era uma Vez que se introduzem à sua história; enfim, uma literatura de encaixe, caixa de surpresas como vem acontecer em As 1001 Noites de Scheherazade...
Desta forma, vozes se entrecortam e amoldam-se: Lúcio-narrador, Lúcio-ouvinte, o leitor-leitor, o leitor-ouvinte... e também Ricardo-escritor e o narrador-Azevedo que não deixam escapar o detalhe surpreendente, ora pela revelação indignada dos fatos, ora pelo humor próprio dos episódios vividos pelo personagem e suas andanças com seqüestradores, artistas de circo e de teatro, caminhoneiros, noivas roubadas, assassinos de cães, falsos religiosos, os diferentes amores com Mônica, Conceição e a misteriosa Alzira, capaz de reconhecer, debaixo de sua aparência, o sujeito-essência que nela se esconde.
Leitura para qualquer idade, a despeito da chancela Juvenil, Lúcio vira Bicho resgata não apenas a tradição, enquanto elemento histórico e antigo, mas atualiza o ritual e o costume da estória bem tramada, envolvente, que deixa livre nossa imaginação e os questionamentos próprios da vida, da sorte e do destino, do que nos chega como alegria ou fatalidade. Metamorfoses do Mundo.