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um Enigmana teia de histórias: a princesa que Adivinha
Peter O'Sagae
PROFESSOR DE LITERATURA INFANTIL Mestre em Letras pela Universidade de São Paulo
Sabemos que todas as histórias são antigas, que se perdem na noite dos tempos... que foram imaginadas e contadas para crianças e adultos de lugares diferentes e, de repente, vamos encontrar antigos personagens e o enredo de suas aventuras nas páginas de um pequenino livro... É o caso da Princesa que adivinha, tal e qual é revelada por Angela Lago, em Sua Alteza a Divinha (RHJ, 1990) -- deliciosamente transportada para um texto que combina palavras e imagens, ao ritmo de uma carta enigmática. É a história de uma princesa que sabe-tudo e somente irá se casar com aquele que conseguir a sua derrota em um jogo de adivinhações. Pois bem, que venham lá os pretendentes... mas todos os moços vão se acabando na forca: rei, capitão, soldado, ladrão: todos, era uma vez!
Até que... (ah, não vou contar, não... vamos deixar o que acontece depois para depois). Agora, interessa saber um pouco mais sobre essa Princesa...
É provável que ela tenha nascido no Oriente, escondida entre as mais diversas adaptações que temos notícias de As Mil e Uma Noites... ou não, ninguém sabe ao certo e isto é um enigma! Mas contam que na distância do tempo, nas paragens árabes, existiu uma mulher de notável inteligência, seu nome era Tawaddoue, conhecedora das artes e dos mistérios, medicina, astronomia, filosofia, lógica e toda ciência... um tribunal de sábios e doutores foi convocado para interrogar Tawaddoue, que afinal se saiu muito bem, formulando suas respostas. Essa moça, ou outra (Ninguém sabe!), foi chamada de Douta Simpatia, pela tradição européia.
E, chegando à Itália, encontraremos as histórias do escritor veneziano Carlo Gozzi e sua Turandot, a princesa de Pequin. Sim, ele traduziu e adaptou contos populares do Extremo Oriente... e Turandot transformou-se em personagem de ópera, na primeira metade desse século, nas partituras de Ferruccio Busoni e Giacomo Puccini. Turandot canta e avisa os pretendentes: "Três são os enigmas, uma só é a morte!"
Mas estava lá, no pavilhão do palácio, um jovem estrangeiro, Calaf, príncipe da Tartária, que aceita os desafios:
"Qual é o fantasma que renasce a cada noite, morre ao alvorecer para continuar vivendo no coração do homem?",
"Arde como a chama da febre e se resfria na morte, queima quando sonha com a vitória e seu brilho parece com a luz do sol que se deita?", e
"Qual o gelo que te inflama e se torna por isso mais frio, queimando-te?"
Calaf responde as perguntas, acertando, e propõe à Turandot que descubra o segredo de seu nome... Nessa noite, então, as ordens do palácio são para que ninguém durma enquanto o enigma do forasteiro não for descoberto (e, na ópera de Puccini, é quando Calaf canta a famosa ária "Nessun dorma" -- se você não conhece a ópera, nem o canto, deixo aqui quatro enigmas para resolver).
Percebam a parecência dos nomes Tawaddoue e Turandot...
Na Península Ibérica, será a vez da Donzela Teodora e, de Portugal para o Brasil é apenas um saltico: ela estará estampada no Cordel com sua típica sabedoria a qualquer prova. Fios que se cruzam, a teia é imensa que a gente até pensa que não tem fim pois ainda tem santa nessa sanha: Santa Catarina de Alexandria, mártir que viveu nos meados do Século IV, venerada no dia 25 de novembro, padroeira dos estudos. Reza a lenda que a jovem Catarina enfrentou os magistrados da famosa Biblioteca, venceu o debate e converteu todos ao cristianismo... Ora, nem sempre ela teve esse nome: a virtuosa nasceu Dorotéia e foi nas águas do batismo que ficou sendo Catarina. Nomes que são o mesmo, quase anagrama, Teodora e Dorotéia significam, em grego, dádiva de Deus.
E quem está no livro de Angela Lago? Uma princesa, a Divinha -- diminutivo de Diva, divina e quase deusa, uma dádiva também no nome...
Do som que se transforma na relação da boca até o ouvido ao significado do nome, seja princesa ou seja donzela, mesmo santa ou alteza, a personagem conquista a simpatia não apenas pela sabedoria que sabe, mas também pela vitória inesperada, como gostamos nas histórias, do mais frágil sobre o mais forte... Tawaddoue, Teodora e Catarina-Dorotéia têm a merecida vitória, porque também torcemos por elas frente às vicissitudes da vida. Mas Turandot, ai, e a Divinha, então?
A adivinha está por toda parte, nos jogos de linguagem de "O que é, o que é?", nas palavras cruzadas, nos enigmas que são elaborados desde o tempo da Esfinge e irá entremear-se nos fios da novela ou do romance policial. O ponto de partida é sempre a pergunta, no entanto, mais importante que alcançar uma resposta é o caminho e o exercício para desvelar seu segredo. Algumas adivinhas admitem dupla solução pois são ricas na experiência da linguagem, diga-se uma linguagem especial, uma linguagem cifrada, como bem acontece nas famosas perguntas capiciosas: neste jogo, quem pergunta sempre oferece uma alternativa diferente, rebatendo a resposta que lhe foi dada... é, por isso, também uma armadilha que o adivinhador deverá esforçar-se para nela não cair. Decifrar significa salvar sua dignidade, escapar com vida. Como um antigo ritual, ter a solução é encontrar o caminho da aceitação.
Calaf conquista Turandot, derrotando a princesa de Pequim. Afinal, qual era o nome que ela ignorava? Soam os trompetes no palco da ópera, a jovem frente ao público deve dar uma resposta para o enigma: "Descoberto o segredo do estrangeiro. Seu nome é... Amor!" Calaf, Amor... Turandot tinha um coração de gelo: a esperança, o sangue e o seu próprio nome são as soluções para três perguntas e somente Calaf era o único capaz de dar a resposta-vida à princesa, enquanto ninguém dormia, entrando em seu quarto e roubando-lhe o sincero beijo.
A Divinha que é princesa, que é sabida, que é trocadilho no nome, também faz suas adivinhas e acaba adivinhada por Louva-Deus, um moço simplório que vai tentar a sorte no castelo... e que sorte encontram os heróis em terras brasileiras! Há diversas variantes que apresentam o herói como João-de-Deus, o Matuto João, o Amarelo...
às vezes sabido como ele só, aparentado com o Pedro Malazartes e sua esperteza, outras vezes, totalmente ingênuo, o tolo de bom coração que irá se casar com uma figura da nobreza, enfim, aceito na alta roda, pondo fim à uma arrogância de princesa...
O livro de Angela Lago atualiza jogo e ritual de aceitação, não apenas na linguagem especial das adivinhas, expressa nas falas da Divinha e de Louva-Deus. A brincadeira amplia-se para as imagens que completam frases, substituindo palavras, também ao representar personagens, objetos e ações da narrativa. E mais: se a escrita é um desenho, a autora não se faz de rogada ao jogar com a diagramação das letras sobre a página: são as vogais de rei, soldado, capitão e ladrão que puxam a corda que sustenta os pretendentes na forca, a palavra montanha que se inclina para alto obrigando o olhar do leitor subir montanha e palavra, sete ooooooovos enfileirados e outros recursos que coloca o livro todo em movimento.
Forma e conteúdo se encontram na felicidade de um livro que não é meramente um livro, mas um artefato, objeto de papel invocando o teatro: é a presença da moldura que não fecha o foco apenas sobre o palco, mas abre espaço para o público entrar em cena, participando da torcida e da expectativa. É também o gestual do flagrante, a entonação da voz, humor e ritmo, sutilezas descortinadas a cada página virada.
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