A caixa do menino 
 Márcia Batista



Márcia Batista
A caixa do menino

il. José Carlos Martinez
Scipione, 1988
24 pp.


A trilha vai até o asfalto, depois é o mato. O pai de João vai abrindo passagem, facão na mão, e o menino segue os passos do pai, feliz,
caixa debaixo do braço. Ali tem tudo do que é preciso para sentir-se preparado: apito, revólver de plástico, mamona, estilingue, canivete enferrujado que o avô não queria mais... Ora, se aparece tamanduá ou gambá, tá feito
porque o menino está muito bem protegido.

Mas, bem pra lá, depois que João viu casa de cupim fazendo da terra um tabuleiro imenso, viu vaca e boi vigiando o pasto, viu formigas numa fila levando folhas cortadas,
o que foi o que aconteceu?
Um bode: o pai correu para
um lado, João para outro — e tropeçou e caiu dentro de um buracão. João tem medo?
Em um momento, não — e tchum, acerta mamona na cara do bicho que foge, béééééé
já vai pra longe... De repente,
o menino sente-se só.

Na trilha do conto,
Márcia Batista segue de perto a forma breve de narrar e ampliar afetos — homem e filho num caminho só, um dedão machucado, o menino nas costas do pai, caixa sempre debaixo do braço. O texto conquistou o júri do Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira 1988 e, ainda hoje, abre um horizonte próprio de sugestões com sabor de vitória, confiança mútua e promessa de outras aventuras. Apesar da aparente escassez de recursos para atrair o olhar, é preciso reconhecer que o ilustrador José Carlos Martinez tirou bom proveito de retículas, porcentagens e misturas entre duas cores, produzindo variedade de tons entre o azul e ocre. Da mesma maneira, vale conferir a simplicidade de um projeto gráfico inteligente e interessante, abrindo balanço e diálogo
entre as páginas, a ilustração e a mancha do texto verbal.

Comentários de
Peter O'Sagae
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