Um livro de horas 
 Emily Dickinson


Emily Dickinson
Um livro de horas

seleção e iluminuras
de Angela Lago
Scipione, 2008
64 pp.


Em 1896, Walter Crane descreveu com olhar de extremo zelo o encantamento que
a ele davam os delicados e decorados livros de horas, acalentados por mãos do passado religioso medieval:
“Um livro de horas não era apenas um livro de preces, mas um picture-book, um santuário, um pequeno espelho do mundo, um templo em meio a um jardim de flores.”
E a alegria que sua descrição nos faz sentir, de alguma maneira, vem agora à lembrança — caminho de leitura
rumo a Um livro de horas, com Angela-Lago.

Tenho um livro de capa dura revestida de
um tecido vermelho impressionante às mãos — que o presente pode acalentar. Quando se abre, descobrimos que, ao modo dos antigos artesãos no ofício do scriptorium,
a autora mineira enclausurou-se na beleza dos poemas de Emily Dickinson — e a ela serve como decoradora e copista. Mas, leitora afeita que é, Angela traduziu-lhe os versos também, colhendo sutilezas em nossa própria língua, rima e dicção que reúne duas dúzias de textos-pensamentos. Neles, reconhecemos o espelho que reflete a alma de quem ama e observa o campo, o jardim, a folhagem, leves rosas e pequenas coisas que voam contra um fundo imutável de montanhas e eternidade. Assim, podemos imaginar, era
o coração de Emily Dickson — para quem, Angela, escolheu bordar páginas que são um rendilhado fractal de azul, vermelho, verde e amarelo envelhecido.

A decoração floral é exuberante — e, do meio
de seus contornos, adivinhamos a passagem do tempo:
do botão a despertar às pétalas encorpadas em cálice. Em vez de tintas e ouro, Angela-Lago usou dos meios digitais imitando um trabalho de agulha e paciência.
O que exige muito igualmente do leitor: horas, recolhimento e muita loucura “para um olho inteligente” — afinal, afinal, ilustrou ou iluminou ela os lindos poemas?

Nunca é demais
deixar-se à dúvida. Pousados estamos num templo particular, em meio a um jardim de flores. É Angela quem nos permite adentrá-lo, agora e sempre:

“Desde menina
costumo declamar poemas nas horas de aflição. Deus,
que vive em toda parte, lá no fundo de mim, escuta.
E me dá de imediato o conforto da beleza.”

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



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