O jogo de amarelinha 
 Graziela Bozano Hetzel


Graziela Bozano Hetzel
O jogo de amarelinha

il. Elisabeth Teixeira
Manati, 2007
32 pp.


A vida e o texto
bem valem um jogo de amarelinha, com suas casas para pular, um, dois, três, dois pés, seis, dois pés, mais um pulo para o céu... Num jogo de fraseado elegante e sentimental, Graziela Hetzel rima cenas ao longo de um conto, ao toque da pedrinha que se lança rumo a uma casa menina de segredos tão íntimos. Seus parágrafos saltitam pela memória breve de um delicado passado muito imediato: é Letícia, aconchegada na prosa, que saltita casmurra pela sua própria e frágil vida.

A narração começa e termina
sobre a mesma imagem familiar:
Letícia brinca de amarelinha na companhia da madrasta.

No início, porém, a menina não tem ânimo e atenção para chegar ao céu, e a tristeza, intrometida, pula afora de seus olhos claros. No céu, está Clara, sua mãe. E o caminho de todos os dias, do campo até a casa, parece insone — ou são elas mesmas que estão sonâmbulas, negando o sentimento dessa nova união. Mas tem noite que não é somente a dor que vem incomodar, é febre de criança, o travesseiro empapado. De lágrimas também.

Num clímax perfumado de alfazema, uma esperança
toma vulto de cuidados com a menina. É carinho só. Letícia fecha os olhos, finge dormir. O leitor também...

As ilustrações de Elisabeth Teixeira em rosa salmão,
areia, lilás e celeste vêm de uma aquarela tranqüila —
mostram-se em pequenas emoldurados de modo a evocar
as casa do jogo de amarelinha, ora isoladas, ora emparelhadas, e assim saltando o fluxo da narrativa
em uma montagem por justaposição palavra&imagem.



O suporte livro é, assim, explorado convencionalmente, mas é preciso ter olhos para o efeito de delicadeza suscitado
pelas imagens ilustradas de Elisabeth Teixeira, dentro do projeto gráfico de Sílvia Negreiros.

Livro escolhido como o Melhor para Criança, pelo corpo de jurados do Prêmio FNLIJ 2008, O jogo de amarelinha é um dos mais sensíveis trabalhos literários do ano.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Pela dobra do braço, espia um correr de formigas. Segue-as
com o olhar até
que desapareçam na greta da pedra. Aos poucos o peito se aquieta. Trêmulas, as pálpebras se fecham, asas de pássaro ferido que a lembrança da dor arrepia. »


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