Sei por ouvir dizer 
 Bartolomeu Campos de Queirós



Bartolomeu
Campos de Queirós
Sei por ouvir dizer

il. Suppa
Edelbra, 2007
32 pp.


Bartolomeu vem contar o interessante caso de uma mulher com três nascimentos, consigo vivendo três diferentes possibilidades, por ser senhora e sorrir por três ângulos distintos do seu próprio rosto, moradora na terra do ontem, na vila do hoje e na capital do amanhã. Três e bons eram seus aniversários que aconteciam no dia de são nunca, no feriado de nossa senhora do sempre e no dia da mentira.

Com a sorte da dúvida, o autor-narrador divide-se
nos papéis de inventor, ouvinte e crítico da própria sugestão. Teria sido não-ter-nada-para-fazer que o fizera pensar na existência dessa senhora? Mas os vizinhos alertavam, em especial, o senhor Trindade que ali ela chegara, num mês sem semanas, e havia construído uma casa três vezes pequena, numa ilha chamada Tríplice.

Tirando-nos assim daqui rumo a lugares onde a crônica vira sonho, Bartô desalinha de invenção um cotidiano diáfano, frágil com vidro e lentes de cristal. Pois é para sentir e pensar que a mulher lhe deixa três pares de óculos: um para ver o perto, outro para ver o longe e o terceiro para procurar os dois. O narrador ainda garoto os usa, depois os perde — quem agora poderá descobri-los?



O livro intercala páginas ilustradas e duplas-páginas só imagem — a ilustração de Suppa, intervalando a prosa poética, dá tempo pra fazer suspiro e pegar de volta o pensamento perdido, nuns matizes de sensação bem fauvista nalgumas figuras que poderiam ser mais Matisse para desalinhar o leitor com o mesmo feitio que o novelo verbal.

Sei por ouvir dizer,
de Bartolomeu Campos de Queirós e Suppa, obra vencedora do Prêmio Jabuti 2008 – Melhor Livro Infantil.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Senti pesar.
É que muitas coisas que estavam perto, eu queria que continuassem perto. Não gostava de óculos que me roubavam preciosos bens: gato, cachorro, vaga-lume, a doce formiga, a melada abelha e as saudades do ontem. É que saudade só existe quando o tempo foi bom... Eu guardava tantas saudades. »

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