A cabra mágica 
 Meshack Asare



Meshack Asare
A cabra mágica

il. do autor
trad. Cláudia R. Mesquita
Edições SM, 2007
48 pp.


Meshack Asare traz para as páginas de seu livro uma história que lhe fora contada por seu avô e guardada pelos ouvidos dóceis da memória. É, portanto, um testemunho recente, pois escrito e ilustrado em 1997, de que a tradição oral viva mantém-se como um manancial de fantasia e ensinamentos, rebrilhando na categoria dos re-contos que costuram as bordas da literatura especialmente dirigida à criança. E, dez anos após o lançamento da obra, a cabra mágica deu um salto para dentro das letras brasileiras.


Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



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Como acontece à boa parte da herança de histórias africanas e outras mais que são tomadas mais proximamente ao labor da oralidade, a narrativa da cabra mágica mostra-se uma mescla de formas, se comparada aos gêneros da literatura de tradição como temos comumente estudado. Inicialmente, evoca-se o tempo da lenda, quando o mundo era organizado em dois reinos separados por um imenso rio: homens de um lado, animais de outro; ao término da narrativa, existe um vestígio de explicação a respeito de como a cabra e a ovelha tornaram-se mais íntimas dos agrupamentos humanos, na qualidade de amigos domesticáveis. A estrada que desemboca na casa da onça, mais o pernoite ali da cabra e da ovelha são duas imagens-situações típicas dos contos que recordam a saga do herói; a cabra revela um gênio irreverente de malas-artes como num conto de esperteza; e não há que se esquecer o desfecho com um lance de transformação da cabra mágica como num conto de encantamento. Em tudo isso, evidentemente, tem um quê de fábula na figura antropomórfica dos animais, agindo como nós mesmos nos momentos difíceis de convivência: é uma história de amizade, traição e luta entre os mais fortes e o mais fracos.

Meshack Asare, além de escrever o texto, também ilustrou o livro que conquistou o prêmio Toyota/Children's Literature Foundation, em 1999, para os mais notáveis livros ilustrados de ficção. Apesar do formato aparentemente bastante restrito e convencional da edição, a partir da página 8, conferimos o ritmo da narrativa visual conduzindo o leitor cenas adiante, cada personagem assumindo um posicionamento, na ilustração, de acordo com sua função no interior da narrativa. Paisagens e pastagens em verde começam a surgir mais para o final do livro, culminando a travessia da cabra e da ovelha. E, atravessando nós outras leituras, fica a informação que a República de Gana, onde nasceu o autor, não é um país pertencente ao mundo lusófono, mas nossa herança africana lá passeia juntamente aos portugueses que desembarcaram por suas praias, na segunda metade do século XV, denominando e dominando a região de Costa do Ouro.

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