Davide Cali O inimigo il. Serge Bloch trad. Paulo Neves Cosac Naify, 2008 64 pp. Há muito, contaram-me não existir o lado certo, nem o errado, em uma guerra. Lá estariam: você — e, do outro lado da linha de fogo, o inimigo. Qual dos dois o mais certo, ninguém poderia julgar... E é talvez essa a razão para a obra singular de Davide Cali e Serge Bloch nos levar para dentro de um buraco no front: somos agora um soldado, estamos em seu lugar. Contudo, somos também o inimigo! Com um texto leve e direto, belo, mesclando a crueldade dos tempos difíceis e o caráter ingênuo de todos nós, os autores abrem páginas de paz sobre os conflitos humanos em meio a mais dorida brincadeira humana. O correspondente de guerra Leão Serva assina, com muita propriedade, a quarta de capa, afirmando: “Os inimigos são exatamente iguais. Na maioria pobres, quase sempre assustados, com saudades das famílias, todos nervosos, com frio, calor e fome. Se por acaso um dia eles trocassem de lado, não mudaria nada, ninguém notaria, porque os de lá são iguais aos de acolá. Então, por que lutam?”.
A cooperação entre Davide Cali e Serge Bloch resulta em um livro de rara eficiência comunicativa. Além da mensagem verbal e seu apelo ao leitor, o texto — enquanto unidade de sentido — completa-se com os recursos gráficos da ilustração e do objeto material. Sendo feita a narração-reflexão na primeira pessoa do discurso, o desenho não se configura univocamente como a representação (simbólica) de um soldado, pois, diante do nosso olhar, o personagem apresenta-se a si próprio, em um caráter muito lúdico e indicial — é mais uma apresentação, um soldado-signo em ação, como se convidasse o leitor a acompanhá-lo ou a “brincar” nessa mesma guerra. Não é à toa que o papel branco torna-se um espaço cenográfico. A convergência palavra&imagem, em O inimigo, segue além do diálogo entre frases e ilustrações, dado o uso inteligente do suporte livro — o que significa que há um projeto gráfico intercedendo na composição da obra e exigindo uma leitura mais atenciosa, material e “espacializada”. Por exemplo, da capa até a folha de rosto (com os créditos de autoria, título, tradução e editora), é passada uma dúzia de páginas como uma seqüência de ações que antecederia os créditos iniciais de um filme... Como se ouvíssemos um locutor, as sentenças de introdução são tiradas em terceira pessoa: A guerra continua. Em algum lugar que poderia ser um deserto... há dois buracos. Nos buracos, dois soldados. Eles são inimigos. Além de assimilar estratégias narrativas de outras mídias, investindo o leitor no âmbito da ficcionalidade, o design “da embalagem” do livro esconde-revela outro jogo de significados. As folhas de guarda do início e do final não são iguais, embora estampadas com o mesmo batalhão de soldados, todos eles iguaizinhos com fuzil suspenso ao ombro e o semblante fechado para dentro de si mesmo. No entanto, de um extremo ao outro do suporte material, uma transformação ocorre... |
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