Catirina e a piscina 
 Gláucia de Souza



Gláucia de Souza
Catirina e a piscina

il. Elma
FTD, 2007
40 pp.


Porque as palavras transformam, Catirina
nelas mergulha para contar a sua história que é também as histórias do pai e da mãe (que o Valnei sempre insiste que são sempre parecidas demais), dos irmãos Cléverton, do Dodô e de Luzia, a que tem
olhos de contar história, e mais gente — que desaparece, como o marido da Romária e a própria Romária
que, um dia, desaparece, ficando só os filhos da Romária
pelo mundo — e gente que chega... De fato, são as histórias que mergulham uma nas outras, pelos recortes e filhotes
de vida que há de se contar por aí.

Entre as palavras e as coisas, há um mundo de distância que só se encurta por conhecimento ou imaginação — e logo que vai aprendendo a escrever, Catirina compreende que é impossível desenhar simplesmente, como quer a professora, a uva que Vavá viu, a Eva que viu Vavá que viu também a neve no inverno... A menina não conhece Eva, nem Vavá que talvez usasse óculos para ver a uva no meio de tantas outras frutas mais graúdas, ou “com certeza, Vavá era um homem bem velho, do tempo em que as uvas eram grandes, do tamanho das melancias, e todo mundo podia ver!” Assim, para Catirina, sempre foi mais fácil escrever as histórias que desenhava em sua imaginação do que pintar as coisas que não foram realmente vividas, ou re-imaginadas.

« Se a dona Amélia dizia: “Hoje lavei
tanta roupa que até cansei. Tinha calça da França, blusa da Austrália, o varal cheio... Até manchei um vestido do Ceilão!”, eu escrevia: “Dona Amélia lavava roupas de pedacinhos
do mundo... Tinhas cordas e cordas de terras distantes...
Um dia, ela lavou tanto, tanto, que cruzou
o mundo todo e foi parar no Japão.” »

Gláucia de Souza vai puxando fios do novelo de uma tautologia menina, com a escrita de Catirina a reordenar o pequeno mundo à sua volta a fim de fazer diferente a história de todos. Livro ilustrado por Elma, com suas meninas com rosto de lua, em algumas páginas inteiramente ilustradas e muitas vinhetas que vão pontuando o texto.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura


« Agora eu tenho treze anos, mas faz muito mais que eu vim de lá. Aliás, nem fui eu que vim. Foi meu pai mais minha mãe. Acho até que vim na barriga dela, esperando para nascer alguns anos mais tarde. Minha mãe me lembrou de que era um dia quente, mas todo dia é quente! Então, era um dia qualquer. »

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