Gianni Rodari Uma história atrapalhada il. Alessandro Sanna trad. Silvana Cobucci e Denise Mattos Marino Global, 2007 36 pp. Um dos jogos preferidos de Gianni Rodari — “errando as histórias” — faz Chapeuzinho trocar de roupas, ares e cores: é amarelo, é preto, é verde... Não, não, responde a voz de um ouvinte atento (é vermelho!), já começando a irritar-se com as rotas alternativas do contador de histórias. Neste livro, uma menina e seu avô (bem mais interessado em ler jornal que servir-lhe de “mamãe ganso”) entram em uma divertida disputa entre a possibilidade das novas histórias e a convenção: afinal, quem poderia imaginar a boa mãe de Chapeuzinho descascando batatas? Ou que a pequena Chapeuzinho Verde (ops!) possa encontrar uma girafa pelo caminho? Ou que o lobo venha só para perguntar uma conta de multiplicação? O que vai mesmo sendo multiplicado é o diálogo com o passado, em um instável re-tecer da velha história que, quanto mais nega suas formas originais, mais a faz presente à mente da criança (ou do adulto). Nas palavras de Gianni Rodari, |
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« É um jogo mais sério do que parece à primeira vista. E
é preciso saber jogá-lo. As crianças são bastante conservadoras quanto às histórias. Querem escutá-las com as mesmas palavras usadas na primeira vez, pelo prazer de reconhecê-las, de aprendê-las em seus detalhes, na sua exata seqüência, de reexperimentar as emoções do primeiro encontro, na mesma ordem: surpresa, medo, gratificação [...] É possível, portanto, que o jogo de errar histórias irrite um pouco as crianças, a princípio. Elas estão preparadas para a aparição do lobo, mas a aparição do novo as inquieta, não sabem se será amigo ou inimigo [...] Neste jogo, as crianças brincam menos com Chapeuzinho Vermelho e mais consigo mesmas: desafiam-se a enfrentar a liberdade sem medo, a assumir arriscada responsabilidade. Portanto, é preciso que as crianças estejam preparadas a um saudável excesso de agressividade, a saltos incomensuráveis no absurdo.
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(1974, trad. 1982: 51-52)
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É exatamente da força do absurdo que uma nova ordem vai sendo proposta e já não importam os caminhos do passado da história, pois os sucessivos impactos também deslindam a tensão e a intenção de um desenvolvimento co-participativo da criança, aí inscrita no texto como a netinha do “distraído” avô, personagens que serão descobertos mais para o final do livro, pois a narrativa vai sendo apenas conduzida através de diálogos.
Com um destino diferente, Chapeuzinho toma o bonde elétrico, sobe três degraus e sai contente fazendo uma imensa bola de chiclete. Acho mesmo que é sabor hortelã para combinar com a refrescante idéia de Rodari — e, nas ilustrações, Alessandro Sanna faz um jogo de formas gráficas, com recortes de papéis pintados, sobreposições, pinceladas cheias de cor, traços simples e extremamente expressivos, num movimento plástico no branco-muito-branco das páginas abertas. |
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