O rouxinol e o imperador 
 Taisa Borges



Taisa Borges
O rouxinol e o imperador

Peirópolis, 2005
32 pp.


Um livro de imagem nem sempre conta uma história, mas pode ser um port-folio de ilustrações para uma narrativa bem conhecida, como é o trabalho de Taísa Borges, um verdadeiro livro com imagens que evocam o velho conto de Andersen. Suas experiências como artista plástica e na criação de estamparia de tecidos habilitam-na a sugerir cenas com riqueza de padrões coloridos, elementos decorativos e figurativos sobrepostos, com os recursos e recortes que a computação gráfica coloca à disposição dos artistas. Contudo, as cenas ilustradas pedem que o leitor tenha conhecimento prévio da história sobre um imperador, donos de largas terras e um imenso jardim que se confundia com as florestas à volta, chegando até as franjas do mar. Lá, os mais simples pescadores conheciam o canto de um inestimável pássaro, um pardacento rouxinol.

Nesse livro, notas e claves musicais são projetados do bico do pássaro por todos os quadros, atravessando páginas, transformando-se em mensagens escritas em ideogramas, caracteres orientais. Diz Andersen que foi somente através de livros estrangeiros que o poderoso imperador tomou conhecimento da existência do rouxinol e desejou imediatamente que ele se apresentasse a sua corte.


 

Mas ninguém, no palácio, entre nobres, conselheiros e outros cortesãos, parecia saber de seu paradeiro. Apenas uma jovem cozinheira o ouvira cantar.

Para os leitores pequenos seria impossível adivinhar a trama que une o pássaro verdadeiro ao rouxinol mecânico, com penas de ouro, cravejado de pedrarias, que o imperador ganha de presente, pois o livro não apresenta a continuidade de uma ação à outra, conquanto que, entre os quadros contíguos, um intervalo se interpõe. Desta maneira, o livro com imagens de Taísa Borges assemelha-se às formas do kamishabai, uma forma de entretenimento em que contadores profissionais ou missionários budistas narravam histórias e fábulas a partir de desenhos, previamente feitos e apresentados em pranchas, com o texto escrito no verso, para sua platéia de populares, entre adultos e crianças. Depois da década de 1920, as folhas ilustradas de kamishibai foram recuperadas por vendedores ambulantes de doces e também pelas agências de ensino, como estratégias de garantir-lhes a venda e a atenção do público infantil.
Nesse sentido de relação palavra&imagem, da voz aos ouvidos, dos desenhos aos olhos, é que se pode considerar
O rouxinol e o imperador como um livro de ilustrações
que procede do texto e a ele retorna, como memória
ou feitio de leitura da narrativa original.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



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