Comentar literatura é, muitas vezes, perder o texto ou só outra maneira de esquecer as sensações experimentadas durante a leitura. E justamente isso é o que eu não gostaria, pois ainda ontem chegou às minhas mãos a bonita edição que Odilon Moraes preparou a fim de acalentar a crônica de Mário de Andrade. Desejo permanecer lá, num flagrante do tempo na dobra das páginas.
Desnorteado como menino que, nas admirações que a vida provoca, exclama “Será o Benedito!”, sinto-me obrigado a margear a narrativa para não comprometer a sua qualidade terna, mágica, tenra e doída que une os homens independentemente das várias idades e das épocas, se vivos ou ficcionais.
Pelas bordas assim, invento de prestar atenção à crônica brasileira que desliza entre os gêneros literários, sem lugar fixo entra a figuração do cotidiano e a ficção. Somente os suportes materiais poderiam servir-lhe de algum indicativo, como registro de um comentário no galope dos incidentes diários — Mário de Andrade foi um incansável cronista e publicou textos em jornais e revistas; Será o Benedito! se fez estampar primeiramente no “Suplemento em Rotogravura”, de O Estado de S.Paulo, no distante outubro de 1939, como homenagem ao Dia das Crianças — ou como um conto, curto e direto nas emoções que produz. Já não importa mais se a história é verídica ou não, quando compreendemos que a linguagem é o que dá de criar a narrativa, ’inda mais deslocada para um livro solo, especialmente ilustrado. Os compromissos do texto com o leitor tornam-se outros; exige recepção literária, e não a secção histórica à moda dos especialistas no assunto. Exatamente também que a expressão “Será o Benedito!”, nas tramas do escritor, torna-se auto-referente: Benedito é o nome do menino-personagem com quem o narrador-de-Mário-de-Andrade estabelece franco e afetuoso contato — e, daí, resulta um sorriso nosso para o humor que pontua o texto. Será o Benedito? É o bendito moleque de treze anos que o narrador traz na memória, desde a primeira imagem que capturou do amigo: — “Achando graça nele, de repente o encarei fixamente, voltando-me para o lado em que ele se guardava do excesso de minha presença. Isso, Benedito estremeceu, ainda quis me olhar, ainda levou a mão à boca, na esperança talvez de esconder as palavras que lhe escapavam sem querer: Com sua aquarela líquida de cores brilhantes, Odilon Moraes cria um homem da cidade, Mário-personagem, com a felicidade de um olhar em movimento cineMATOgráfico sobre o excesso que o cronista ocupava ante a visão do menino, ambientando assim o texto, bem mais que o reproduzindo. Toda crônica já nasce com um puro talento para ser imagem, como coisa que é instantâneo do pensamento. Crônica que vira conto, então, sem se mede. E Odilon ilustra o livro como quem está a dirigir um filme,
Primeira cena que o leitor invade, ou que invade o leitor, está na capa, dentro de um antigo trem, o homem no escuro, o livro em suas mãos iluminado por um dia azul, a janela pendurada na paisagem, a bagagem espalhada confortavelmente. Sem que queiramos (nem adianta mais negar o que o olhar acolheu), estamos enredados na narrativa que visualmente já começou. Nas páginas de guarda, uma comprida cerca ripada é duplamente observada — tanto do ponto de vista do personagem, quando do leitor que percorre, da esquerda para direita, uma estradinha de terra que se afunda num rancho longe. Corta para — uma visão panorâmica sobre uma pequena vila, próxima da estação de trem, casas com telha de barro, janelas e portas azuis, paredes cor de branco e cor de tempo; na linha do horizonte, depois dos verdes novos em folha, a linha dos trilhos com sua maria-fumaça fumando para o céu — e virando a página,
Embora descritivas e informativas, à medida que encarnam e representam personagens e cenas da narrativa, e expressem uma força decorativa, as ilustrações, sem fugir dessas funções e qualidades, não redundam em dizer os mesmos significados que o código verbal ou roubar-lhe poesia e metáfora. A poesia visual é outra: seus reflexos ambicionam traçar estruturas homólogas à crônica no que ela possui de subjetividade — o ponto de vista do autor Mário de Andrade, somando-se ao ponto de vista de Odilon Moraes — ambos requerem um olhar-leitor que acompanhe os cortes e tome uma posição compreensiva da nova dinâmica. O espaço compartilhado entre Mário-personagem e o menino é, inicialmente, dominado pelas distâncias que a escolha de planos em perspectiva vem reforçar e, quase sempre, a figura do cronista ocupa realmente maior dimensão sobre o papel, não apenas porque é um homem maduro e corpudo, mas também excesso de estranheza do moleque.
Em duas ilustrações, homem e menino se conjuminam no diálogo inevitável e compartilham de um mesmo espaço diante do diretor de cinema e do seu leitor-espectador. O plano em perspectiva ilusoriamente desaparece, ao vermos os dois próximos. É bonita a imagem de Mário e Benedito, montados em cavalos, lado a lado, o adulto adentrando as distâncias da paisagem, até então dominadas pelo dono de trezes anos em “carreiras livres pelo campo”. Ora, o momento mais feliz da leitura foi, da poltrona onde assisto à crônica, a impossibilidade de tradução verbo-visual à moda de conclusão dessa experiência — “Em troca disso, Benedito me mostrava os dentes do seu sorriso extasiado, uns dentes escandalosos, grandes e perfeitos, onde as violentas nuvens de setembro se refletiam numa brancura sem par.” — e, em troca disso, na dupla página (14-15),
Não vem ao caso aqui desvendar todas as imagens, mal chegados que estamos do meio da narrativa — que intencionalmente não contei, não poderia contar sob o risco de congelar uma idéia, quando o trabalho de Odilon Moraes ao editar as seqüências foi exatamente colocá-las, pluralmente, em movimento. É um trabalho de correlacionar leituras, porque os pontos de vistas estão descentralizados com sua variedade. Nada, além das palavras, ou nem mesmo elas e daí a majestade da crônica de Mário de Andrade, encontra-se fixo. Algo que venho me perguntando, nos últimos anos, é se uma ilustração poderia mimetizar o movimento de câmera lenta. Esse é um efeito de sentido que talvez seja alcançado pelas contaminações palavra&imagem, a despeito de uma antiga preocupação, entre os artistas quinhentistas,
Muitos pintores do passado só conheciam o teatro como uma representação que tomava cor, corpo e movimento. Mesmo os impressionistas e os futuristas ambicionaram desenvoltura e velocidade no espaço pictórico e gráfico. Só mesmo a cineMATOgrafia mais contemporânea traria a dilatação do tempo, tornando-o plástico, distorcendo-o. E, na página 10, se não encontro a câmera lenta, vejo ao menos a lentidão somada à repetição de uma cena recorrente à memória do autor-personagem-narrador e procuro socorro verbal, numa página antes — “assim principiou uma camaradagem que durou meu mês de férias” — e a imagem que segue suficientemente tem manchas, personagens sem rosto, guardados numa memória visual simulada pelo ilustrador. Contudo, o que seria provável aqui, teria também alguma extensão a todo o livro — e a hipótese em mãos é frágil.
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