Será o Benedito! 
 Mário de Andrade, por Odilon Moraes

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura


Lançamento 17 de abril
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Mário de Andrade
Será o Benedito!

il. Odilon Moraes
Cosac Naify, 2007
36 pp.


Comentar literatura é, muitas vezes, perder o texto ou só outra maneira de esquecer as sensações experimentadas durante a leitura. E justamente isso é o que eu não gostaria, pois ainda ontem chegou às minhas mãos a bonita edição que Odilon Moraes preparou a fim de acalentar a crônica de Mário de Andrade. Desejo permanecer lá, num flagrante do tempo na dobra das páginas. Desnorteado como menino que, nas admirações que a vida provoca, exclama “Será o Benedito!”, sinto-me obrigado a margear a narrativa para não comprometer a sua qualidade terna, mágica, tenra e doída que une os homens independentemente das várias idades e das épocas, se vivos ou ficcionais.

Pelas bordas assim, invento de prestar atenção à crônica brasileira que desliza entre os gêneros literários, sem lugar fixo entra a figuração do cotidiano e a ficção. Somente os suportes materiais poderiam servir-lhe de algum indicativo, como registro de um comentário no galope dos incidentes diários — Mário de Andrade foi um incansável cronista e publicou textos em jornais e revistas; Será o Benedito! se fez estampar primeiramente no “Suplemento em Rotogravura”, de O Estado de S.Paulo, no distante outubro de 1939, como homenagem ao Dia das Crianças — ou como um conto, curto e direto nas emoções que produz. Já não importa mais se a história é verídica ou não, quando compreendemos que a linguagem é o que dá de criar a narrativa, ’inda mais deslocada para um livro solo, especialmente ilustrado. Os compromissos do texto com o leitor tornam-se outros; exige recepção literária, e não a secção histórica à moda dos especialistas no assunto.

Exatamente também que a expressão “Será o Benedito!”, nas tramas do escritor, torna-se auto-referente: Benedito é o nome do menino-personagem com quem o narrador-de-Mário-de-Andrade estabelece franco e afetuoso contato — e, daí, resulta um sorriso nosso para o humor que pontua o texto. Será o Benedito? É o bendito moleque de treze anos que o narrador traz na memória, desde a primeira imagem que capturou do amigo: — “Achando graça nele, de repente o encarei fixamente, voltando-me para o lado em que ele se guardava do excesso de minha presença. Isso, Benedito estremeceu, ainda quis me olhar, ainda levou a mão à boca, na esperança talvez de esconder as palavras que lhe escapavam sem querer:
—O hôme da cidade, chi!...”

Com sua aquarela líquida de cores brilhantes, Odilon Moraes cria um homem da cidade, Mário-personagem, com a felicidade de um olhar em movimento cineMATOgráfico sobre o excesso que o cronista ocupava ante a visão do menino, ambientando assim o texto, bem mais que o reproduzindo. Toda crônica já nasce com um puro talento para ser imagem, como coisa que é instantâneo do pensamento. Crônica que vira conto, então, sem se mede. E Odilon ilustra o livro como quem está a dirigir um filme,
 
criando antecedentes, câmara lenta e posteridade para as imagens da narrativa. A integração palavra&imagem é marcada por distâncias, reflexos assimétricos e solidariedade. Vejamos, ponto por ponto, essas idéias.

Primeira cena que o leitor invade, ou que invade o leitor, está na capa, dentro de um antigo trem, o homem no escuro, o livro em suas mãos iluminado por um dia azul, a janela pendurada na paisagem, a bagagem espalhada confortavelmente. Sem que queiramos (nem adianta mais negar o que o olhar acolheu), estamos enredados na narrativa que visualmente já começou. Nas páginas de guarda, uma comprida cerca ripada é duplamente observada — tanto do ponto de vista do personagem, quando do leitor que percorre, da esquerda para direita, uma estradinha de terra que se afunda num rancho longe. Corta para — uma visão panorâmica sobre uma pequena vila, próxima da estação de trem, casas com telha de barro, janelas e portas azuis, paredes cor de branco e cor de tempo; na linha do horizonte, depois dos verdes novos em folha, a linha dos trilhos com sua maria-fumaça fumando para o céu — e virando a página,

pp. 2-3
 
um plano em perspectiva coloca Mário de costas para nós, retirando as malas da carroça, o cavalo parado; distante, uma sombra magra de moleque correndo serelepemente. Quando a primeira linha da crônica se inicia, um mundaréu de idéias já pertence ao universo do leitor.

Embora descritivas e informativas, à medida que encarnam e representam personagens e cenas da narrativa, e expressem uma força decorativa, as ilustrações, sem fugir dessas funções e qualidades, não redundam em dizer os mesmos significados que o código verbal ou roubar-lhe poesia e metáfora. A poesia visual é outra: seus reflexos ambicionam traçar estruturas homólogas à crônica no que ela possui de subjetividade — o ponto de vista do autor Mário de Andrade, somando-se ao ponto de vista de Odilon Moraes — ambos requerem um olhar-leitor que acompanhe os cortes e tome uma posição compreensiva da nova dinâmica. O espaço compartilhado entre Mário-personagem e o menino é, inicialmente, dominado pelas distâncias que a escolha de planos em perspectiva vem reforçar e, quase sempre, a figura do cronista ocupa realmente maior dimensão sobre o papel, não apenas porque é um homem maduro e corpudo, mas também excesso de estranheza do moleque.

pp. 18-19
 
A mudança de foco e a proximidade entre eles obviamente acontece no registro da crônica e na cineMATOgrafia das imagens. Mas, Odilon, antes faz um jogo de câmera, uma torção no eixo visual, sempre às costas do personagem adulto — o livro ilustrado é também evidentemente uma homenagem aos dias de criança, aos dias de Benedito.

Em duas ilustrações, homem e menino se conjuminam no diálogo inevitável e compartilham de um mesmo espaço diante do diretor de cinema e do seu leitor-espectador. O plano em perspectiva ilusoriamente desaparece, ao vermos os dois próximos. É bonita a imagem de Mário e Benedito, montados em cavalos, lado a lado, o adulto adentrando as distâncias da paisagem, até então dominadas pelo dono de trezes anos em “carreiras livres pelo campo”. Ora, o momento mais feliz da leitura foi, da poltrona onde assisto à crônica, a impossibilidade de tradução verbo-visual à moda de conclusão dessa experiência — “Em troca disso, Benedito me mostrava os dentes do seu sorriso extasiado, uns dentes escandalosos, grandes e perfeitos, onde as violentas nuvens de setembro se refletiam numa brancura sem par.” — e, em troca disso, na dupla página (14-15),
 
pp.14-15
impõe-se nova distância na perspectiva: Mário é uma sombra mal definida, sentado em uma tora, junto ao descanso dos cavalos, abaixo do céu que é todo vibração de manchas — e o Benedito tão sem par, em primeiríssimo plano, que toda sua figura já não cabe mais na página, escapa em nossa direção, sorrindo para os leitores.

Não vem ao caso aqui desvendar todas as imagens, mal chegados que estamos do meio da narrativa — que intencionalmente não contei, não poderia contar sob o risco de congelar uma idéia, quando o trabalho de Odilon Moraes ao editar as seqüências foi exatamente colocá-las, pluralmente, em movimento. É um trabalho de correlacionar leituras, porque os pontos de vistas estão descentralizados com sua variedade. Nada, além das palavras, ou nem mesmo elas e daí a majestade da crônica de Mário de Andrade, encontra-se fixo.

Algo que venho me perguntando, nos últimos anos, é se uma ilustração poderia mimetizar o movimento de câmera lenta. Esse é um efeito de sentido que talvez seja alcançado pelas contaminações palavra&imagem, a despeito de uma antiga preocupação, entre os artistas quinhentistas,


pp.24-27
 
ou muito antes, em fazer da pintura, arte da representação espacial, romper seu congelamento e passar à narração, como forma de expressão do tempo. Nesse caso, compreendo que uma imagem pode verbalizar-se com a ajuda de seu leitor, reconhecendo e colhendo, na tela, os índices de que algo se sucedeu antes, em breves instantes, ou encontra-se prestes a acontecer. Com imagens em seqüência, ainda que estáticas, o efeito é mais facilmente projetado.

Muitos pintores do passado só conheciam o teatro como uma representação que tomava cor, corpo e movimento. Mesmo os impressionistas e os futuristas ambicionaram desenvoltura e velocidade no espaço pictórico e gráfico. Só mesmo a cineMATOgrafia mais contemporânea traria a dilatação do tempo, tornando-o plástico, distorcendo-o. E, na página 10, se não encontro a câmera lenta, vejo ao menos a lentidão somada à repetição de uma cena recorrente à memória do autor-personagem-narrador e procuro socorro verbal, numa página antes — “assim principiou uma camaradagem que durou meu mês de férias” — e a imagem que segue suficientemente tem manchas, personagens sem rosto, guardados numa memória visual simulada pelo ilustrador. Contudo, o que seria provável aqui, teria também alguma extensão a todo o livro — e a hipótese em mãos é frágil.


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O livro ilustrado de Odilon Moraes traz outros enigmas mais palpáveis, como dois jogos de páginas abertas (6-7 e 20-21), simetricamente opostas no suporte, como pontuando o ritmo visual e, em relação à narrativa da crônica, com uma função musical, de certo, para arejar um contraponto. Revelam uns significados? E o final: tendo o leitor-ilustrador acompanhado os passos de Mário-personagem, com olhos cineMATOgráficos sempre, por fim, assume totalmente o seu ponto de vista, num jogo com a memória do outro, onisciência, reflexo poético que o suporte materializa, ou quantas categorias mais que desejarmos inventar para rever o zoom sobre uma cena antes vista ou apenas sonhada pelos afetos do escritor-narrador, do autor-personagem, do ilustrador ou do leitor (qual deles, agora, não importa). Eis a posteridade de uma imagem — para celebrar. O Benedito é!

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