Lúcia Hiratsuka Festa no céu festa no mar DCL, 2007 40 pp. Havia um tempo mais ingênuo quando as pessoas imaginavam que cavando, daqui até abaixo do fim do buraco, acabaríamos chegando, além do centro da Terra, no distante país do sol nascente. Banzai! Essa idéia é extremamente sugestiva e poderia ajudar a explicar as histórias que Lúcia Hiratsuka decidiu recontar e o próprio livro que a autora ilustrou. Talvez, se cavássemos as antigas narrativas populares até o fundo, de qualquer uma delas que se parta, seria descoberto um centro comum. Bom, esta é a primeira “teoria” de mitógrafos do século XIX e muitos folcloristas que tenho chamado indianajonamente de “arqueólogos do texto”. E, neste livro, com duas capas = duas entradas para uma história aclimatada no Brasil e outra iniciada no Japão, o leitor já sabe que chegará a um final comum. Porém esta não é toda surpresa do livro! As páginas têm alguns gracejos muito graciosos: começando pelo conto brasileiro da Festa no céu, na falsa folha de rosto, uma maritaca verdinha segura no bico um grande pedaço de papel, onde se lê — “Só para você” e podemos ficar muito dos contentes com essa dedicatória; mas, virando a página, a mensagem continua — “que tem asas”. Hmmm, portanto estamos excluídos da festança que vai acontecer lá nos altos com todo o passaredo possível. Do outro lado do livro, a brincadeira recomeça... Só não vou contar como. No céu, aves brasileiras — andorinhas, periquitos, tucanos, tuiuiús, biguás, bem-te-vis e outros que nem vi — armam o maior arrasta-pé com sanfona e triângulo e vão numa embolada de sons que saem do pandeiro e chocalho, batucam com atabaques e caixas de reggae. Ah, sim, viola não poderia faltar, manda o rei da cantoria, o urubu. No mar, nas ondas que abanam os peixes com seus leques, o som de escalas pentatônicas e semitons saem do koto dedilhado, das cordas percutidas do shamisen, da respiração no sopro do sakuhachi, juntamente aos ton-ton-don dos toque-toques dos taikos. Toda essa descrição é sugerida pelas ilustrações dos diversos ambientes que diferenciam duas culturas que se tornaram tão irmãs, pois a narração de Lúcia Hiratsuka aparece extremamente enxuta, mesmo que mergulhando em águas verde-azuis do oriente, ou voando às nuvens carregadas de brasilidade. Se você não foi convidado, ora essa, não tem importância: o leitor é sempre um penetra nos livros. Além da música, tem uns comes e bebes típicos de cada país para os olhos devorarem... |
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