Noite de cão 
 Graça Lima



Graça Lima
Noite de cão

Salamandra, 1991
Paulinas, 2007
36 pp.

Barrigudinho e amoroso, este basset hound sonolento vive uma verdadeira noite de cão-fusões, no rumo mesmo de um "realismo fantástico" que desconhece fronteiras entre o mundo de olhos fechados e o mundo dos acordados. A história é bastante simples e risonha, a começar do título que usa da expressão "passar uma noite de cão" que, levada ao pé da letra, leva-nos ao pé das imagens — um sonho dos bons que a autora propõe para passarmos uma noite com este incansável cão.

Para contar a sua história, Graça Lima tem convocado e provocado deslocamentos entre diferentes códigos visuais recebidos das histórias em quadrinhos e dos desenhos animados, ambas as linguagens já inseminadas pelo cinema, e tudo isso organizado no espaço gráfico das páginas. Compreender o ritmo das transformações é
acercar 50% da marcha narrativa.

A cercadura retangular,
por exemplo, delineia os espaços por onde o cãozinho fareja e apronta das suas, mas não mais limita o cenário — é apenas um índice de que o espaço se modifica e, por isso, mesmo uma sinalização da passagem do tempo. Sempre existem uns antes e outros depois. Mas não é só isso, não.

Graça brinca com a simultaneidade de ações,
dentro de um mesmo espaço, como no exato momento em que, tendo a lua tristonha, ferida, amuada, com cara de nem-te-ligo-farinha-de-trigo, o esperto basset dança, joga bolinha, oferece flores e pensa em que mais poderia fazer — no melhor estilo "tudo ao mesmo tempo agora", isto é, desdobra-se em quatro para mudar os ânimos da lua. Assim, mais do que estar habituado com a representação gráfica de onomatopéias e quadros quebrando a seqüência de uma história, o leitor deve ter aprendido também com as HQs que a figura de um mesmo personagem, duplicada ou dez vezes representada, “significa” simplesmente sua movimentação.

As rápidas mudanças de situações, tão típicas aos desenhos animados, vão sendo diluídas pelas sucessivas transformações do cenário: ora tudo parece muito plano, aí aparece uma montanha, depois um mar — aliás, mar que se formou do rio de lágrimas que o pobre basset chorou... Ou, ainda, quando o cãozinho, soltando fumaça pela cabeça,
tira uma escada enorrrrrrrrrme e ninguém sabe de onde, e a escada vai pegando um jeito interrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrminável. Diversos códigos promovem criativas fusões
do humor com a poesia — e, no final de tudo, a noite de cão terá parecido curta demais para o olhar dos leitores ;-)

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



O primeiro chamado, em diferentes edições do livro de Graça Lima: será que ele quer que a lua desça?

1, 2, 3 ações, o basset passeia: mais do que a cercadura, o espaço em branco herdado das HQs.

Fragmento da dupla-página que solicita um movimento circular de leitura, no sentido dos ponteiros do relógio: ao todo, o personagem é representado cinco vezes e a última figura fareja metalinguisticamente o outro lado da página!



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