Laura Bergallo Alice no espelho il. Edith Derdyk Edições SM, 2007 176 pp. Nesta livro, texto e ilustrações fazem alusões claras às obras de Lewis Carrol, Alice no país das maravilhas e Alice através do espelho, a começar da epígrafe do primeiro capítulo, que introduz a protagonista, também Alice: "Criança da fronte pura e límpida/ E olhos sonhadores de pasmo!"... Alice vai se mostrando aos poucos: uma adolescente em processo de sofrimento por transtornos de anorexia e bulimia, frutos de uma sociedade governada pela ditadura da estética. A temática da mulher presa ao espelho, como figura do culto ao corpo, aparece também na personagem da mãe, Elisa, cujo nome é um anagrama quase perfeito do nome da filha, que, sob muitos aspectos, a espelha. Ao longo do livro, há inúmeras referências à obra de Carrol, na própria memória de Alice, cujo nome foi escolhido pelo pai, por causa do clássico infantil. Seu pai, quando ainda convivia com a filha, se mostrou um importante formador da Alice leitora, da palavra e do mundo, dado que a impulsiona, ao longo da trama, a sair da prisão do espelho. O texto se constrói num diálogo permanente entre o mundo de fantasia de Carrol e a realidade da menina, que convive com o duplo abandono e ausência dos pais e a ambigüidade de sentimentos em relação a eles. Em dado momento, Alice atravessa o espelho e encontra Ecila, seu personagem-reverso, um alter ego, de nome igualmente anagramático, que ajuda Alice a se reencontrar num mundo de aparências, vivenciando muitas aventuras. Em contraste com o texto de Carrol, a passagem pelo espelho confronta Alice com um mundo imaginado, onde o faz-de-conta não subsiste à cruel realidade a que adolescentes de seu tempo são subjugadas. Ali, tudo remete ao mundo dos espelhos, dos modelos, das exigências de uma beleza padronizada. E é, retornando desse mundo imaginado que espelha o real, que Alice consegue rever-se frente às exigências de seu tempo. O livro é rico em possibilidades de leitura e relações intertextuais, levando o leitor a uma viagem fantástica pelos espelhos da contemporaneidade. Imperdível! |
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