José Carlos Aragão É tudo lenda... il. Flávio Fargas Dimensão, 2007 64 pp. Dizem que mineiro sempre tem uma boa história para contar e, mesmo que seja tudo lenda, você pode acreditar: foi mais ou menos assim que aconteceu, há muito tempo, antes de inventarem o carro, o pneu e as esquinas da cidade. E José Carlos Aragão, mineiro que é, chega num novo livro para explicar o tim-tim por tim-tim de como as coisas surgiram, evoluíram, se transformaram, desde as suas origens aos dias de hoje. Dá para imaginar como surgiram as crianças no mundo, quando as pessoas já nasciam como gente grande? Ou que precisaram inventar a manhã, numa época em que a noite costumava acordar tarde, quase na hora do almoço, quando a tarde chegava? Pois é... O tanto quanto a memória permite, o escritor insiste em suas histórias — que, para alguns, pode ter um quê de sem-sentido, mas para muitos têm sua porção de verdade. E falando em porção, você sabia que o tempo não foi inventado como acreditavam os primeiros construtores de ampulheta e, bem depois, os fabricantes de relógio de bolso? Nada disso. Só depois de muito tempo, eles descobriram que o tempo sempre existiu. Outras descobertas, invenções e nascimentos povoam
narrados com o charme despretensioso de quem nasceu numa terra que possui até mesmo uma gramática própria para reger as palavras. Preste atenção como só mineiro sabe aumentar as coisas com diminutivos, porque lá é onde o longe fica só um tirinho daqui. É manipulando os usos que damos às palavras que Aragão tira o melhor efeito delas, ao aproximar em uma mesma frase o sentido figurado e a referência objetiva, por vezes brincando com o contexto narrado e a elasticidade lingüística — resultando em humor, toques de ironia e disparates. Todo o conjunto, aliás, se assemelha a verbetes históricos de uma enciclopédia (descrevendo fatos, dissertando sobre algumas idéias) e, por essa razão, os textos do autor não deixam de lado uma sátira a respeito dos textos informativos. Bem que o título já alerta o leitor: é tudo lenda... mas, por trás de todas as histórias, sabemos, sempre há um pouco de verdade. Ou não? As páginas de ilustração e de texto se alternam, no livro, e as imagens coloridas de Flávio Fargas tomam conta de páginas duplas, com a apresentação dos títulos. Não são exatamente vinhetas (uma coisa assim diminuta que inventaram para separar/unir duas seqüencias distintas). São verdadeiros vinhetões em que se vê um traço rápido e seguro que aproxima o cartum e o desenho infantil, em uma técnica mista que vai da hidrocor à pintura digital. |
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