Gláucia de Souza J o s e f i n o il. Flávio Fargas edição bilíngue Comunicarte, 2007 24 pp. Josefino é um menino alto e magrinho, de corpo comprido, pernas compridas e braços... compriiidos! Nome e menino são perfeitamente tão parecidos que não estranhamos se ouvimos sua mãe lhe chamar: Josefiiiiiiiiino! E a resposta que segue é assim sempre: fiiina, aguuuuda, esticaaaada... Das coisas de que mais gosta, Josefino curte estirar o corpo na grama e olhar para as profundezas do céu — então, um dia, viu uma nuvem comprida, fininha, estendida lá no alto. Com certeza, aquela era uma nuvem josefina! E ela logo notou que o menino quase nunca saía debaixo, deitado sobre o gramado. O que tanto ele espia ou espera acontecer? Para distrair Josefino, mesmo fina, a nuvem inventa de fazer desenhos para divertir o menino. Sonhos e pensamentos vão assim adquirindo formas no céu — até parece que a nuvem adivinhava! No entanto, o que ela não consegue compreender é por que Josefino mais Josefino se torna enquanto os dias passam... Com o domínio de uma leve prosa poética, Gláucia de Souza leva-nos a um sentimento agudo que se infiltra como tristeza porque adivinhamos as outras histórias na vida de Josefino — bem ao meio da narração, a leitura se alarga para a descoberta de uma alegoria: porque são outros meninos alimentando-se de vento e de imaginação aqui representados. A autora, narrando sonhos que despertam do cotidiano e o revestem de magia, soube como transformar o contexto social em um elemento brando e discreto. E, assim: enternecidos pelo texto, desejamos que a nuvenzinha jamais desista de rever o seu menino — e voe os dias todos que forem necessários para o reencontro, sem desaparecer do céu. Nas ilustrações, Flávio Fargas escolheu cores vibrantes para representar um cenário com ares brasileiros (antecipado desde a capa do livro) e um Josefino de braços espichados — ao longo do corpo, com as mãos atrás da cabeça, para o alto. Durante o dia, não faltam os matizes do azul e duas pipas no céu... E todas as suas tintas vão se espalhando com rapidez sobre o papel, criando texturas, claros, escuros e ranhuras de ponta seca, em mistura equilibrada com os recursos de computador, como a confecção de uma minuciosa cerca, os padrões e as transparências nos caracóis do vento ou o ziguezague dos raios. As imagens “não completam” o texto em seu sentido mais literal, buscando repetir detalhes que só a palavra retém; Fargas complementa a narrativa, à medida mesmo que a interpreta com uma visão possível do cenário e do personagem. Em muitas páginas, a ilustração permanece silenciosa — mantidos os traços de pertinência* ao conjunto do trabalho. * Traços de pertinência — em vez do conceito de coerência, empregado pela lingüística e capaz de assinalar contradições, rupturas e nexos de continuidade temática, o conceito de pertinência alinhava a compatibilidade entre dois elementos (no caso, palavra e imagem, figuras e temas). Assim, sutileza — que às vezes só acidentalmente o olho lê, pois tanta pode ser a pressa para adentrarmos na história —, a primeira página do livro contém o título emoldurado por quatro estrelas e pontilhados azuis a uni-las: eis o Cruzeiro do Sul, símbolo de nossa brasilidade, ambiguamente realçado não como uma cruz, mas pelo contorno análogo a uma pipa: sonhos, alturas, desejos, desenhos — metáforas visuais que concorrem ao processo de leitura. |
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