Rãzinha cantora 
 Regina Chamliam e 
 Helena Alexandrino



Regina Chamliam
Rãzinha cantora
e outros poemas


il. Helena Alexandrino
Paulinas, 2007
32 pp.

Debaixo do aguaceiro,
uma rãzinha canta sozinha.
Uma lata de óleo vai
ao endocrinologista fazer uma consulta! Um sapato que
salta como um inseto e o camelo (ou dromedário)
em longa jornada sobre as corcovas de areia do deserto... Gente, bicho e objeto encontram-se e se encantam nos
vinte e dois poemas de Regina Chamlian e na aquarela
de Helena Alexandrino. E o que é mais importante:
com um ritmo preciso, palavra&imagem entrelaçam o leitor num riso-sorriso ingênuo, gostoso e feliz.

Regina conta que escreveu os poemas deste livro em um caderno com as folhas amareladas pelo tempo e, depois, guardou-o em uma caixa de papelão cheia de capim e folhas de eucalipto. “É que eu queria que os poemas ficassem com cheiro de mato.” Ficaram: com cheiro de mato, bergamota, violeta e novidade. Tudo o que a gente conhece se arranja com uma descoberta e, mais do que rimar rimas, bichos e objetos reviram-se como palavras que são — e, como dou todo um reino por um trocadilho bem ajeitado, é um delírio ler o poema da galinha gulosa querendo bicar as milhares de estrelas do céu porque “julga milho aquele brilho”. Ou, então, imagine você, o que a gaveta quer ser, quando crescer...

Com diferentes números de estrofes e variada extensão métrica, a escritora brinca com o discurso e os acentos, muito a vontade, para criar padrões melódicos próprios para cada poema. Num jogo de repetição de palavras, os versos tornam-se lentos como uma tartaruga, sem nenhuma pressa para buscar uma remessa. Mas também se aceleram no upa upa de um cavalinho-passarinho com a crina cor-de-rosa.
No entanto, não só de ouvido depende nossa leitura, como na primeira estrofe do poema “Mundo afora” — os sons se embalam alternados: altos-claros e abertos no início de cada verso, mais profundos e fechados para o final, enquanto a ilustração alterna montanhas e vales...

Helena conta que precisou colocar uma concha marinha
sobre os papéis para as ilustrações não voarem, numa noite que ventava muito. “Pensei que seria bom se ela passasse para os desenhos um pouco que fosse do barulho do mar.”
É ver para encontrar os ritmos, as cenas que se movimentam, o jogo de opostos, as invenções e os trocadilhos especialmente visuais, como o chapéu do sabonete, as asas da gaveta, beijos pelo vidro do aquário... Ah, sim, o livro vem sob a guarda de dois delicados pernilongos, tocando violino e flauta — ou seria um oboé?

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



Fragmentos dos poemas:

JORNADA

No mundo sem água
num mar de areia
o camelo nada
o camelo anda.

Camelo ou dromedário
segue solitário
ninguém por perto
a não ser o sol.
..........................

DONA CENTOPÉIA

A centopéia
avista a lagarta
o dedo esticado
pedindo carona.
— Suba, lagarta. ..........................
Lá adiante
surge um elefante.
..........................



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