Marie-Francine Hébert Nenhum peixe aonde ir trad. Maria Luiza X. Borges il. Janice Nadeau Edições SM, 2006 48 pp. A produção editorial brasileira se enriqueceu, em 2006, com a bela edição de Nenhum peixe aonde ir, livro de fruição desestabilizadora, não mero prazer recreativo. Leitores adultos de sensibilidade lúcida — acima de concepções estratificadas, posições canônicas, recusas alheias a uma avaliação crítica, que não prescinde da leitura —, desfrutarão a riqueza da obra e estarão em consonância com a escritora, que se dirige na dedicatória "a todos, pequenos e grandes, que trabalham para elevar o espírito humano no grande pote da vida". Ultrapassando-se restrições quanto a gênero, ou classificação etária, relevante é constatar o valor da abordagem profundamente perturbadora e humanitária onde a linguagem verbal e visual concilia a contundência trágica com nuanças de lirismo e leveza. Na metáfora do pote, concentra-se a complexidade do poder transformador, revestido de ambigüidades: este objeto mágico é a ponte entre as duas narrativas — a de Nenhum peixe aonde ir e O pote dos sonhos—, articuladas simultaneamente. Do diálogo dos universos imaginários interpostos, decorrem fortes conotações poéticas, engendradas na natureza sutil da tessitura artístico-literária, e a concomitância — insustentável numa composição ficcional plana — de lirismo/crueza, fantasia/ realismo, universo adulto/infância, encantamento/desilusão, medo/coragem, desagregação exterior/coerência interior. Cabe tudo no pote: vida, morte; luz, escuridão; magia, monstruosidade, e, também, possibilidades visionárias combativas ao caos destrutivo e favoráveis ao vislumbre de nova perspectiva de realidade. Simbolicamente, projeta-se o sentido de que, das mãos flexíveis do ceramista, possa nascer um mundo diferente, que reverta a dura e tirânica ordem imposta a crianças, adultos e velhos na caminhada em meio a terror e morte, "sem nenhum lugar aonde ir". Assim, dos grandes conflitos oriundos da desorientação e do massacre da guerra, resta a esperança associada à protagonista infantil — a humana, sonhadora, inquieta Zolfe. Por ela conhecer a versatilidade dos conteúdos do pote, não se aloja no seu íntimo derrota ou desistência, mas este desejo desafiador: "Quando eu crescer, quero ser ceramista". |
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