Kazumi Yumoto Os amigos trad. Shirlei Lica I. Hashimoto Martins Fontes, 2000 222 pp. Durante o último período da escola primária, Kiyama e seus dois amigos, o gordo Yamashita e o esquisito Kawabe, decidem vigiar a vida de um velho para vê-lo morrer — talvez, nada mais possa soar tão febril ou mórbido, e igualmente típico da infância. A curiosidade inicial recebe, no entanto, um tratamento afável e honesto com que a autora japonesa Kazumi Yumoto soube conduzir o leitor e seus personagens a uma aproximação com os aspectos admiráveis do amadurecimento humano. Kiyama, Yamashita e Kawabe descobrem como um jardim de verdadeiras relações pessoais pode ser cultivado, fazendo brotar insuspeitados sentimentos e verdadeiros temores. Na primeira parte da novela, os meninos cercam de olhos a casa do velho, acompanhando seus passos quase diários ao mercado e a imobilidade do homem em frente à luz azulada do televisor. Por detrás de um muro, espiam o quintal abandonado e, quando o tédio das horas sem qualquer movimento ou ruído domina o ambiente da casa, Kiyama e seus amigos projetam histórias sobre a figura do velho. Enfrentam também outros inconvenientes, neste posto de observação, como o rodízio de turnos entre eles, a fome, a chuva e o desagradável cheiro de lixo amontoado que exala do outro lado do muro. Para o sucesso da empreitada, os meninos tomam as providências necessárias, cabulando as aulas de reforço, trazendo lanche, carregando guarda-chuvas e... retirar furtivamente o lixo que deita sobre o mato. Mas, o que eles não sabem (ainda) é que, de vigias, Kiyama, Kawabe e Yamashita também são vigiados. Do confronto inevitável às sementes que espalharão pelo quintal do velho, os três amigos colhem diferentes recordações para o futuro. Embora a narração aconteça em primeira pessoa, Kiyama se apercebe como cada um reconhece os aspectos ambíguos e, por vezes contraditórios, da íntima experiência de viver o último verão com o velho. Além da trama original, o cotidiano contemporâneo torna-se nítido ao fundo, com suas forças de coesão e coerção sobre uma sociedade que se consome sem estabelecer vínculos essenciais entre as pessoas. Kazumi Yumoto escreve uma história de esperanças — com o título Natsu no niwa, significando "jardim de verão" — a respeito de silêncios: vozes que se calam, tempo de rega e espera... Simplório em suas ambições, Yamashita é filho de peixeiros e peixeiro será. Kawabe habitou-se a mentir a respeito do pai, inventando-lhe fabulosas profissões que justifiquem sua ausência de casa. Diária, no entanto, é a distância entre Kiyama e sua mãe que silenciosamente derrama a frustração no alcoolismo. Talvez para ludibriar o abandono que sentem, refugiam-se os meninos na incauta adoção do velho... E, com a proximidade dos exames finais da escola primária, eles sabem que brevemente irão se separar — contudo, mesmo que as chances na vida relacionem-se diretamente com o desempenho nos estudos, um futuro que ninguém viverá por eles virá com as aptidões e os sonhos que os três amigos necessitam plantar. |
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