Balanço 
 Keiko Maeo



Keiko Maeo
Balanço

trad. Diogo Kaupatez
Cosac Naify, 2007
40 pp.

Um livro-poema
ou um poema-objeto
que integra esteticamente as três dimensões do livro para crianças: texto, imagem e suporte material em contínua produção de significados, demandando da leitura a atenção do tato,
a acuidade visual e a curiosidade cinética para movimentar páginas no balanço do balanço do menino... A capa vestida de tecido rústico com estampa em duas cores de silk-screen, o livro diagramado para ser lido na vertical. Então,
páginas em um resistente off-set com seu polimento opaco.
Matizes de azul aventuram-se em cobalto, índigo ao marinho mais denso, intercalados às páginas em fundo branco onde
o menino é visto de frente, de costas, de ponta-cabeça...
O tempo passa pelas cores, o azul é um pêndulo, os olhos passam para lá e para cá, as páginas são o pêndulo...
Porque as páginas balançam o menino no balanço do leitor!

tonari-no-machimade mo yugure-ga kiteimasu
gaitou-no-ataride        hora yoruga       furueteru
aoi aoi furiko ninatte

A leitura dos versos e das ilustrações recriam
as íntimas percepções e idéias de um menino durante
os intervalos de idas e vindas do balanço, abaixo
do céu que escurece, ao mesmo tempo em que as luzes das casas, prédios, parques e ruas são acesas e acabam por transformar a paisagem em quase-pintura. No impulso que dá ao brinquedo, o menino sente que pode chegar até a uma cidade vizinha, ouve o assobio do vento que sopra... E o que estava longe tornou-se próximo, o que era perto fica distante! O tempo que passa é como se passasse a repetir-se — e este jogo de sentidos vamos descobrindo com leituras que também se repetem, para lá e para cá, no manuseio do livro. O poema igualmente oscila entre sensações físicas, como sentir profundamente o perfume do vento, de olhos fechados, e a imaginação veloz entrecortada de visões. Mágico e lúdico é pensar que se pode colher estrelas de menta com o capuz do agasalho, tão alto o menino chega e, talvez, ainda mais alto que ele poderia deixar uma pegada no céu.

Então, uma surpresa para os leitores:
na escura noite da lua, que é a própria página do livro,
os pés do menino aparecem quase in-vi-si-vel-men-te impressos em baixo relevo!

Na língua original, o poema
apresenta um predomínio ou tendência para o ritmo acentuado em compasso ternário, embalando os ouvidos...

Acima, inseri uma transcrição romanizada do início do poema para que o leitor possa ter uma noção de seu aspecto sonoro, embora seus efeitos tenham evidentemente se perdido no processo de tradução para nosso idioma, bem como algumas poucas idéias-imagens do texto. Para a língua portuguesa, por exemplo, as estrelas não mais possuem sabor de menta — que se articularia com a refrescância e a felicidade de balançar alto na noite e no vento. Apesar disso, muito da delicadeza e a originalidade da proposta estão ao alcance de nossas mãos.
Aoi aoi, azul azul como um pêndulo: furiko ninatte ;-)

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura




* Visão interna de duas páginas do livro editado no Japão. A disposição da escrita oriental forma um diagrama relacional entre imagens e o movimento da leitura que se faz do alto para baixo.

A edição brasileira é bilíngue e traz, ao final,
o poema de Keiko Maeo em hiragana-katakana.

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