Bartolomeu Campos de Queirós O ovo e o anjo il. Helena Alexandrino Global, 2007 16 pp. Porque o exercício da poesia também é tornar semelhantes os diferentes, Bartolomeu Campos de Queirós revela, com simplicidade e zelo, cantos e vôos adivinhados dentro do ovo, asas que elevam anjos e aves ao céu mais cor de flauta. Mansamente, o poeta desperta espantos do ninho das palavras — e, então, vai acalentando cotidiano e imaginação como se fossem feitos da mesma matéria. Seja lá “noite clara de prata” ou “dia com brilho de ouro”, no vôo lúdico destes versos, o pequeno leitor pode comparar e permutar os objetos oferecidos à sua percepção: o ovo, a ave, feitos em vôo, ou anjo, às vezes cantos e rezas — e descobrir simpaticamente porque “é preciso duas casas para menino virar anjo”. Eis aí o antídoto contra pensamentos rasteiros, ainda que qualquer criança esteja distante de saber o que veio nos contar Octavio Paz, que “cada imagem — ou cada poema composto de imagens — contém muitos significados contrários ou dispares, aos quais abarca ou reconcilia sem suprimi-los”. Ela bem o sabe, instintivamente. Por instinto poético. E, nas ilustrações, Helena Alexandrino recria bonitos motivos sugeridos pela poesia de Bartolomeu. Escolheu a semelhança delgada da cegonha para representar a afeição humana das aves, fez anjos canoros e também anjos que são meninos em estripulias pelas paisagens tingidas de aurora, verde-água e diluições em cobalto, desenhou ninho de ovos e ninho que é colo de mãe. E olhos sempre fechados, como afirmando que a poesia é uma visão íntima aos sonhos. Na capa, os símbolos dançam e se abraçam de forma mágica e devotada. Ave e anjo se tocam em cumplicidade de oração e carinho mútuo, envolvem com suas asas o mundo onde pousa o pé do menino buscando vôo. É um mundo todo guardado como o tesouro de um ovo. |
| |||
|