Rua Luanda 
 Edimilson de Almeida Pereira


Edimilson de
Almeida Pereira
Rua Luanda

il. Rubem Filho
Paulinas, 2007
40 pp.


Longe dos batuques,
tantãs e agogôs,
vem do luandê da língua a invenção de uma África cálida, imersa em uma luz muito calma dos poemas de Edimilson de Almeida Pereira.
Rua Luanda nos recebe assim: como um patrimônio de afetos, memória de ladeiras e janelas, rios, rodas, luzes e lufadas de vento que o progresso das grandes cidades não devorou... Sílabas, sonhos e sonoridades vêm irromper brandamente bem onde o mar começa e não sabemos onde, porque as paisagens são só pensamento e poesia.

Vamos imaginariamente bater em praias onde se dissipam
o medo e a noite: os primeiros versos têm a força e a forma mitopoética de um sol que se eleva e vai, vai se encrespando no cabelo luandino, desde o amanhecer ao fundo da tarde. Com seu poder para definir contornos, a palavra proferida
é a luz própria dos versos que distingue, nomeia e
dá existência a tudo... Mas não elimina uma inquietação do
eu lírico perante o receio maior de tornar-se indizível, perdendo assim sua identidade: “Quem seríamos se
nos faltasse o nome?” No vão da pergunta, há muito mais
que uma sentença existencial: há uma serenidade política para firmar-se como sujeito de histórias
que estão para ser contadas.

Por esta razão, os poemas
narram instantes, descrevem intimidades, dando nome
a cada pessoa de Rua Luanda: Pá e Bibiana moram
em uma casa à beira de nossa cabeça, Arabela tem
pestanas de janela e espia uma praça, João Planz
muda a direção das ruas, Iola pergunta quem será seu pai,
Jéremie estica os olhos até o vento... O lugar e a língua
se assemelham e moldam-se, retomando sempre a idéia de que somente o nomeado é conhecido — ou transformado. Rua Luanda é um espaço de utopia e uma cantiga que acalenta, feito onda e quintal, fruta e assovio...

Como a personagem Bina, o poeta se esmera
na “fiação das palavras” — sempre sonoras, numas terras
do sem-fim em que o carretel de sua imaginação desenrola um caminho lúdico para os leitores, sem fazer alardes, permitindo florescer os sentidos de cada texto.
Livro belo e sereno
que nos permite reconhecer no outro aquilo que somos.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



A língua

A língua de oi se
é uma
língua para dizer as coisas
que ainda serão.

Oi se o sol casar
com a lua,
quem de noite e de dia
se prenderá no céu?

Oi se um lençol
vestir o verão? Oi se a rua
virar um rio?
Oi se o se ciciar?

Esta é a língua
secreta,
que mora no silêncio
da boca.

Quando a falamos,
um país
com outra paisagem
se cria.

[fragmento do poema]




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