Alice Vieira Os olhos de Ana Marta il. capa: Yili Rojas Edições SM, 2005 176 pp. Portas fechadas, corredores sem cores e as sombras a esconder os olhos de uma presença invisível e misteriosa. Talvez viesse a ser a própria Alminha-da-Senhora, ou a Outra-Pessoa de quem as pessoas não ousam falar. O silêncio retumba mais do que qualquer outro tinido — e invade a infância de Marta. Seria preciso permanecer imóvel como uma boneca de porcelana posta à exibição para as visitas porque mesmo os seus passos, por mais leves que fossem, despertariam a casa e as crises de Flávia que-todos-diziam-ser-sua-mãe. A menina bem se convenceu de que houve uma troca, coisas de mau destino que a fez correr ao hospital, como quem busca remédios para a dor de cabeça e, de lá, no entanto, retornaria com uma criança nos braços. Flávia jamais dizia seu nome, jamais saía de casa, nem durante as férias. Envolta por uma atmosfera de segredos e histórias, iniciadas muito antes de seu nascimento, Marta refugia-se nas cantigas e nas aventuras do Príncipe Graciano pelas sete partidas do mundo, tiradas pela velha e calorosa Leonor. Havia um tempo em que diligências cortavam planícies pelos corredores da casa e seu pai não era Martim, mas Touro Sentado, em conversações sobre alianças e emboscadas com o Coiote Vermelho. Leonor contava o passado quando sentia saudades, ou quando se zangava com Flávia... Em um texto que reflui tempos e nomes, Alice Vieira orquestra sombras e personagens com acordes distintos, humanamente possíveis, belos e densos, na pauta de sua escrita. O fraseado é todo melódico e até mesmo as palavras mais estranhas ou expressões desconhecidas acomodam-se dóceis e ingenuamente bem humoradas. É neste embalo que lentamente o prisma de emoções adquire movimento e vai refratando um espectro de luzes sobre os moradores vivos e ausentes da casa. Variados enredos ressoam assim iluminados pela maestria da autora e articulados pela narração de Marta, em diálogo muito próximo com alguém que não se vê (“Sabes como era Leonor: às vezes as palavras saíam-lhe da boca e, quando ia por elas, já elas estavam ditas.”) — e o leitor bem poderá sentir-se tentado a ocupar o cômodo lugar de ouvinte, ao mesmo tempo em que se sentirá observado pelos olhos vigilantes de Ana Marta. |
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