Arnica Esterl As mais belas histórias das Mil e uma Noites il. Olga Dugina Cosac Naify, 2007 88 pp. O desejo do rei é sempre do tamanho de suas posses — é o que deve fixar em nossa lembrança algum velho adágio, pois quando o rei Chariar sentiu saudades do irmão e quis vê-lo mais uma vez em vida, ordenou ao Vizir que levasse ricos presentes e seu convite à corte Samarcanda, onde morava Chazamam. Mas — deveria igualmente advertir outra máxima da boca dos sábios para nossos ouvidos — o poder de uma mulher encontra atalhos onde os olhos do marido não a alcançam, pois este é o motivo principal que antecede as mil e uma noites de narração contínua e maravilhosa. Sem esperanças de encontrar no mundo mulher fiel, o coração de Chariar esfria e ele passa a celebrar núpcias com as filhas de toda a corte para, na manhã seguinte, condená-las à morte. Eis, então, que surge voluntariosamente a hábil e bela Sherazade, no primeiro dos quatro contos reunidos e adaptados pela escritora holandesa Arnica Esterl. A coragem e a inteligência também são atributos de Morgiana, uma escrava que despista e desarticula uma quadrilha ao encalço de seu senhor. Na história que segue, a fidelidade feminina é igualmente medida quanto à prontidão para guardar um segredo e saber preservar as riquezas, quer seja propriedade, quer seja prosperidade, de seu amo. Fazendo-se passar por uma dançarina com finíssimo véu sobre os ombros, em um momento decisivo, Morgiana equilibra graça e perícia ao cravar um punhal, de uma única e silenciosa vez, no coração do convidado que ambicionava a ruína e a morte de Ali Babá. De fato, a história dos bem-conhecidos quarenta ladrões possui uma esperta protagonista que, mesmo sem dizer “Abra-te, sésamo!”, abriu seu destino para a própria liberdade. Nos demais contos, outros prodígios das noites árabes são recordados, como o sábio Mercador que recebera de Alá o dom de compreender a língua dos animais, mas há de tornar-se mais sábio ainda, quando aprender a lidar com a indiscrição de sua esposa... Por fim, um rei que concede a mão das três filhas em casamento a geniais inventores do antigo mundo, capazes de engenhos e maquinarias assombrosas, como a estátua de um homem em tamanho natural e inteira de ouro que fará soar uma trombeta quando inimigos se aproximarem do reino, um relógio montado com vinte e quatro cucos que cantam nas horas certas e um pavão dourado que esconde a Lua no bico e um cavalo talhado do mais puro e escuro ébano, com ouro e pedrarias, capaz de voar... Em uma história de apaixonados, encontros e desencontros, a fidelidade e a esperteza se unem sob um outro nome: perseverança. As imagens que ilustram o livro foram realizadas por Olga Dugina, com figuras humanas claras e ricas em detalhes, com feições realistas que evocam a Era de Ouro da Ilustração (e, em especial, Warwick Goble), em composições bem comportadas e molduras exuberantes. As vinhetas e as vestimentas dos personagens trazem padrões, cores e contornos influenciados pelo decorativismo do arts-and-crafts e um pouco mais da art-nouveau. Por vezes, nos cenários, emprega uma perspectiva afetiva ou medieval em que as linhas retas e simétricas iludem um ponto de fuga, mas o efeito é verdadeiramente gráfico e prevalece sobre qualquer representação natural de espaço. E, entre jardins, minaretes e janelas, animais de sua fantasia invadem o papel, como a sereia-harpia de olhos plácidos e garras curvas na capa do livro. |
| |||
|