Sylvia Orthof A fada lá de Pasárgada e Cabidelim, o doce monstrinho il. Andrés Sandoval Edições SM, 2004 80 pp. No meio de tantas fadas coloridas, existe a primeira: preta, pretinha, brasileira, de longas tranças, que dança samba. É a fada Poesia, cor da noite, noturna, e olhos feitos de estrelas, piscantes. Mora nas terras imaginadas por um poeta, ora essa, que bandeira! Mora lá em Pasárgada, por isso é que ela é amiga do rei. Com sua chegança, com seu condão de fitas, até formiga canta e cigarra carrega folhas... Tudo fica diferente, especial e virado, por onde ela passa. Num dia, nada demais, que parecia que nada havia mais para fazer, ela catava piolho de uma estrela desgrenhada. Encontrou o Pio Olho e arregalou com a descoberta. Vai mais e mais e mais e vem a ninfa Brisa e vem o Tio Vento e venta fora algumas páginas do livro: vão todos os personagens embora, fica só a Poesia! No texto de Sylvia Orthof, é muito difícil adivinhar o que pode acontecer na próxima virada de página. Eis que surge um Anão-Gigante que nem cabe na ilustração: por isso, o leitor vê apenas a planta do seu pé. Realmente, não tem cabeça à vista, nem nesta história sem demoras! Rapidamente, tudo acontece como melhor lhe apetece: não só para a autora, pois o leitor também pode fazer acontecer o que quiser, de uma hora para outra, chamado para completar um verso, uma lista, um desenho que ninguém fez ainda. Ai, ai, ai! Parece confuso, mas não é não. Sylvia, que foi atriz e dirigiu peças para crianças, coloca no papel toda a sua teatralidade e confecciona um narrador que dialoga vivo diante da gente. É pois, um ilusionista, bem humorado, bem articulado com as palavras e seus jogos de sentido. Do som ao ouvido, Orthof desentope o riso, faz do incrível uma salada bem temperada de personagens e temperamentos. Seu texto é assim uma montagem de cenas e cantoria, um mundo que se improvisa no momento mesmo da primeira leitura. E o melhor: a novidade não se gasta, emplaca na segunda leitura, na terceira e assim por diante. Nas últimas páginas do livro, outra história: Cabidelim, o doce monstrinho, que mora dentro de um guarda-roupa com seus braços-ouvintes. Não há tristeza, choro, amolação que resista ao charme de seu abraço! |
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